Joel, sem entender o que estava acontecendo,
recebeu os carinhos da mãe. Ele tem
a certidão de óbito número 3311.

No dia 30 de outubro do ano passado, Joel Antônio do Nascimento, 30 anos, foi sepultado por parentes e amigos no município de Rio Branco do Sul, vítima de atropelamento. Na lápide, além da foto, uma mensagem de carinho da família: “Ele deixou no coração de cada um de nós uma lembrança viva e uma afeição que jamais de extinguirá”. Parecia uma profecia, pois mais do que uma lembrança viva, o próprio Joel reapareceu ontem, muito vivo.

Depois de passar seis meses chorando pela morte do filho, Maria da Glória dos Santos Nascimento, 56 anos, foi surpreendida pela visita de Joel, que ontem bateu no portão de casa, esbanjando saúde. Já o corpo, que está enterrado no cemitério local, ninguém sabe de quem é.

A confusa história teve início no dia 12 de outubro, quando Joel, portador de deficiência mental, saiu da casa onde morava com a mãe e outros três irmãos, na Rua Silvanira de Oliveira, bairro São João Batista, em Rio Branco do Sul, e não voltou mais. Preocupada com o desaparecimento dele, Maria da Glória pediu para que sua filha, Dirlei, fosse até o centro de Curitiba para procurá-lo. No dia 30, a garota foi até o Instituto Médico Legal (IML), onde reconheceu o irmão como sendo um rapaz que havia sido atropelado três dias antes, e que não portava documentos.

Enterro

Ao ser avisada que o filho estava morto, Maria da Glória foi até o IML e providenciou a liberação do corpo. No mesmo dia Joel foi velado em casa e enterrado no município de Rio Branco do Sul. Dezenas de amigos e parentes não tiveram dúvidas de que realmente era ele quem estava no caixão. Na tentativa de livrar-se da dor da perda, a mãe se desfez das roupas, do colchão e até da cama do filho.

Seis meses se passaram quando, na manhã de ontem, uma Kombi de cor branca parou em frente a casa de Maria da Glória. Os ocupantes do veículo perguntaram aos vizinhos onde morava a mãe de Joel e assim que ela foi ver o que estava acontecendo, avistou o filho passando pelo portão. “Não acreditei quando vi ele. Sofri e chorei muito depois do enterro e agora choro de alegria. O problema é que não sei quem está enterrado no lugar dele”, contou emocionada.

Sem acreditar no que aconteceu, Maria não soube dizer quem levou o filho para casa. Joel também não deu explicações de onde estava durante todo este tempo.

IML

A alegria da família é incontestável, mas a história conta com um sério agravante. No túmulo onde há a lápide com a foto e identificação de Joel tem um corpo de outro homem. Além disso, a família já recebeu o seguro obrigatório contra terceiros (DPVAT), equivalente a R$ 6.200.

De acordo com o plantonista do necrotério do IML, Joanito de Freitas, quando um corpo não está identificado, a família que o reconhece deve levar todos os documentos originais da pessoa morta. Depois disso, o corpo só sai do necrotério quando as digitais são confrontadas com as da carteira de identidade. O diretor do Instituto Médico Legal de Curitiba não atendeu a reportagem da Tribuna para esclarecer o que aconteceu de errado neste caso. Resta saber agora quem serão os responsabilizados pela identificação incorreta do morto e de quem é o corpo que está enterrado.