Osni Tavares.

Aos 63 anos de idade, dos quais passou os últimos 42 lidando com o jogo do bicho, e hoje administrando uma cooperativa de contraventores que garante o sustento de 352 funcionários registrados – claro que em funções que não denunciem a parte ilícita da coisa – Osni Tavares, um dos mais antigos bicheiros de Curitiba, revela que está sendo ameaçado de morte. Para tentar se proteger, procurou a Promotoria de Investigação Criminal (PIC) e deu nome "aos bois". Revelou quem o está ameaçando e o porquê. Garante que a contravenção em Curitiba e Região Metropolitana é "limpa", livre da ingerência do tráfico de drogas e da lavagem de dinheiro, coisa que acontece em outros grandes centros, como o Rio de Janeiro e São Paulo.

Comedido nas palavras, mas demonstrando sua larga experiência no setor, Tavares não se queixa da polícia (nem Civil nem Militar), inclusive diz que os policiais estão cumprindo o papel deles nas vezes em que investem contra as fortalezas do jogo do bicho – que antigamente era crime e dava cadeia, mas hoje não passa de contravenção penal e resulta em penas brandas (ou alternativas) para quem, por acaso, for condenado. Porém, alerta: tem gente "do mal" tentando se infiltrar no suposto pacato clã do jogo curitibano. Pessoas que trariam em sua esteira o envolvimento do bicho com drogas e outros crimes de maior poder ofensivo.

Denúncia

Na semana passada, a sede da cooperativa – no Hugo Langue – foi invadida pela Polícia Militar, que vasculhou tudo, até os rolos de papel higiênico, em busca de outras coisas que não fossem as listas de apostas. "Queriam nos incriminar. Envolver-nos com drogas ou armas, mas nada foi encontrado", garante Osni, que ao saber da operação, saiu de casa em socorro aos mais de 100 funcionário (a maioria motoboys) que estavam sendo detidos e levados à delegacia. Na semana anterior, outras duas sedes de recolhimento de apostas, no Batel e no Pinheirinho, também já haviam sofrido a investida policial. "É gente de bem que acaba sendo detida, trabalhador honesto", lamenta o bicheiro.

O que causou grande estranheza em todas as situações, conforme assegura Tavares, é que as operações pareciam estar sendo comandadas por um ex-policial militar, o conhecido Manfredo Flores Mandragon, cujo nome já aparece em alguns inquéritos policiais, que lhe valeram a exclusão dos quadros da PM. "Ele estava armado, dando ordens, como se tivesse o controle da situação. Nesta oportunidade ameaçou-me de morte", revela o contraventor, que a partir daí decidiu procurar a PIC e pedir ajuda ou, pelo menos, uma investigação sobre a presença do ex-PM nas operações levadas avante pelos ex-colegas.

Fatia

No entender de Tavares, Mandragon fez denúncias contra bicheiros de Curitiba, para tumultuar a situação, e está agindo com as "costas quentes", alguém maior do que ele tem interesse em se infiltrar no bicho de Curitiba. "Este indivíduo quis ganhar o jogo do bicho de Campo Largo. Não conseguiu. A gente não permitiu", diz ele, referindo-se aos demais membros da cooperativa. Há uma suspeita de que Mandragon está na área a mando dos bicheiros cariocas, que teriam grande interesse em roubar a cena do jogo na Região Metropolitana de Curitiba. A fatia engordaria o poderio de fogo dos cariocas. Também é sabido que há tempos traficantes de "fora" também estão tentando assumir o comércio de drogas nos municípios que fazem limite com a capital paranaense. Delegacias da RM com freqüência se vêem envolvidas em investigações de assassinatos comandados pelo tráfico, pela disputa dos pontos de droga. Outra informação corrente é que, no Rio de Janeiro, pontos de drogas e de jogo do bicho funcionam juntos.

O procurador de Justiça Dartagnan Cadilhe Abilhoa, coordenador da PIC, revela que é grande a preocupação das autoridades diante da tentativa de invasão carioca. Salienta que o crime organizado ganharia muitos pontos se conseguisse conquistar o novo território e o combate ficaria ainda mais difícil. E confirma que houve registro de queixa contra Mandragon, pela ameaça de morte feita contra Osni Tavares.

Violência

Em 20 de setembro de 2000, portanto há quase cinco anos, outro bicheiro curitibano foi ameaçado e acabou executado com vários tiros, em frente a sua casa, na Rua Euzébio da Motta, no Juvevê. Almir José Solarewicz estava se afastando do bicho e disseminando em Curitiba as famosas maquininhas caça-níqueis. Estas teriam sido o pomo da discórdia e o motivo do crime. Na época, o nome de Mandragon também foi citado como participante da trama. Aparentemente nada foi comprovado contra ele, tanto que está em liberdade. Outro suspeito, Otaviano Sergio Carvalho de Macedo, o "Sérginho", é o único acusado do crime que está preso.