Depois de 22 dias internada, Monik Pegorari de Lima, 23 anos, voltou para casa. Ela e o namorado Osíris del Corso, 22, foram baleados no Morro do Boi, em Caiobá, em 31 de janeiro.

O rapaz morreu no local e ela ficou 18 horas à espera de socorro, ferida na perna e nas costas. Monik reafirmou que o suspeito Juarez Ferreira Pinto, 32 anos, preso semana passada, é o criminoso.

Na noite de segunda-feira, ela recebeu a equipe do Paraná-Online, para entrevista exclusiva. Calma e muito otimista, ela falou sobre o crime e o futuro. Em todo momento ela parecia feliz e determinada. No entanto, quando o assunto era as horas de terror vividas no morro, ficava tensa e falava com pausas.

Monik contou que ela e Osíris encontraram Juarez sentado no começo da trilha do morro, com a cabeça abaixada. “A tarde estava muito quente, achamos que ele estava com a pressão baixa ou coisa parecida. Osíris o cumprimentou e foi surpreendido por uma arma que ele sacou da cintura”, contou.

Juarez teria ordenado que os dois subissem a trilha. Osíris, para protegê-la, mandou que ela fosse na frente, ele no meio e Juarez atrás, com a arma em punho. “Era agressivo e transtornado”, completou.

Gruta

Foi quando chegaram à gruta que o bandido pegou o dinheiro, cerca de R$ 90, que ela tinha no bolso do short. ”Ele mandou que eu tirasse a roupa, e o Osíris tentou intervir. Foi aí que ele foi baleado. Gritei, e fui ferida, primeiro na perna. Senti que queimou.

O outro tiro, acho que acertou a pedra e ricocheteou em mim. Foi nessa hora que eu perdi o controle das pernas e cai, justamente em um pedaço de madeira, que ficou fincada nas minhas costas”, descreveu.

Monik afirmou que Juarez estava sozinho e, depois de ter matado o rapaz e atirado nela, fugiu. “Fiquei por horas gritando por socorro, mas ninguém ouvia. A gente até ouvia passos no meio da floresta mas ninguém aparecia.” Horas mais tarde, o bandido voltou à gruta e, de acordo com Monik, perguntou o que estava acontecendo, ofuscando-a com a luz de uma lanterna.

“Fiz de conta que não o havia reconhecido e pedi-lhe ajuda, depois de contar tudo que havia acontecido. Mas eu vi que era ele, a voz dele era inconfundível. O jeito de falar, o olhar dele”, afirmou a jovem.

Abuso

“Nesse momento, ele mexeu na minha calcinha e eu o repreendi. Logo depois ele fugiu, acho que ouviu barulho no mato e suspeitou que estava chegando alguém.”

Monik disse que ele colocou um chapéu no seu rosto. “Não vi o que aconteceu, tentou me sufocar e tudo mais. Ele até me falou: ‘Eu não sei se você vai me identificar depois’. Aí eu falei: ‘Cara, faça o que você quiser, você já levou o que tinha de mais importante para mim’.”

Moscas e urubus

Um dos momentos mais difíceis vividos por Monik foi quando ela já sabia que o namorado estava morto. Viu as moscas pousarem na boca de Osíris e, mesmo sem poder se levantar, jogava pedras para que urubus não se aproximassem do corpo. Monik não confirmou a participação de outra pessoa. “Pode ser que tenha ficado no mato.”

Futuro

Monik garantiu que vai concluir os cursos universitários de Farmácia e Educação Física. Na próxima semana vai a Brasília, onde fará exames no Hospital Sara Kubitscheck e espera voltar a andar em breve. “Não posso parar de viver por causa do que aconteceu. Vou dar a volta por cima”, afirmou.

Suspeito tem má fama

Mara Cornelsen

Juarez, descrito por todos que o conheceram na praia como um homem calado, que andava devagar e vivia se queixando de dores pelo corpo (sofre de hepatite C e tem outros problemas de saúde), gostava da madrugada. Depois do trabalho na distribuidora de bebidas, passava as noites pela rua principal de balneário Santa Terezinha.

“Vários fumeiros (usuários de maconha) aqui da praia ficavam perto dele, pra conseguir alguma droga”, contou um jovem de 20 anos, que fuma maconha, e que diz ,ter conseguido alguns baseados com o suspeito.

Comerciantes da via principal contam que praticamente todas as noites baixavam as portas das lanchonetes e sorveterias, já no final da madrugada e percebiam Juarez parado na esquina, conversando com drogados. “A gente nem acreditava que ele iria conseguir trabalhar na manhã seguinte. Parece que não dormia”, conta uma comerciante.

Bagunça

O dono de uma lanchonete, cujos funcionários dormiam no apartamento ao lado do ocupando por Juarez, revela que os empregados reclamavam muito da bagunça e tinham medo que a polícia aparecesse e prendesse todo mundo.

“No começo eles vendiam droga dentro do apartamento. Depois, a dona do imóvel ameaçou chamar a polícia, e eles passaram a fazer isso na rua ou na praia”, assegurou a comerciante, referindo-se a Juarez e alguns de seus colegas de quarto. Depois do crime no Morro do Boi, ficaram no local apenas Juarez e um artesão, que afirmou nunca ter visto nada de diferente no comportamento dos rapazes.

Para a polícia, é confirmado o envolvimento de Juarez com o tráfico, até porque ele cumpriu pena de dois anos e meio por esse crime. Não está descartada a hipótese de ele usar o morro como ponto de venda, já que frequentadores do local afirmam que viciados são vistos com frequência ali.

Interrogatórios

No fim de semana, funcionários da distribuidora de bebidas em que Juarez trabalhava foram interrogados novamente na delegacia de Matinhos, com acompanhamento da promotora de justiça Carolina Dias de Oliveira. Tudo indica que alguns estariam tentando proteger o suspeito, dizendo que ele estava em seu local de trabalho no dia do crime.

Um livro de anotações de “vale” com data rasurada e supostamente sem duas páginas, foi apresentado à polícia, para demonstrar que Juarez, naquela data, havia recebido R$ 50, por volta das 20h30. A funcionária justificou a rasura por ter errado a data.

Até agora é a única que garante que Juarez estava em Santa Terezinha na noite do crime. A testemunha que teria visto Juarez com outra pessoa, saindo às pressas do morro, não confirmou a história à polícia.