Davi, Osvaldo e Vicente,
com o defensor, no Tribunal.

Depois de cinco adiamentos, defesa e Ministério Público acreditam que o julgamento dos acusados do assassinato do garoto Evandro Ramos Caetano, cometido durante um suposto ritual de magia negra em Guaratuba, em abril de 1992, finalmente será concluído. Os trabalhos, porém, seguem em ritmo lento, e a previsão é de que os pais-de-santo Osvaldo Marcineiro e Vicente de Paula Ferreira e o ajudante de terreiro Davi dos Santos Soares permaneçam no banco dos réus até domingo.

Ontem, o dia inteiro foi dedicado à leitura dos autos, incluindo depoimento de testemunhas, laudos de perícia e interrogatórios de acusados. Previamente, o juiz e as duas partes estabeleceram que “apenas” 200 páginas do processo serão lidas pela defesa e outras 200 pela acusação. “Quisemos abreviar ao máximo esta parte do julgamento. Haverá perdas, mas o essencial está mantido”, falou um dos promotores de acusação, Paulo Sérgio Markovicz de Lima. O processo é composto por 11 mil páginas, mais os apensos (anexos).

A previsão inicial era de que as cinco testemunhas de acusação e as dez de defesa começassem a depor hoje à tarde. O atraso no andamento, porém, poderá adiar os depoimentos para amanhã. Apesar da demora, há confiança de que o julgamento chegará ao final. “Defesa e Ministério Público estão se tratando de forma cavalheiresca, e a sociedade espera uma resposta da Justiça”, disse Markovicz.

Silêncio quebrado

Como as testemunhas não estão isoladas, promotores e advogados dos réus combinaram não conceder entrevistas, para evitar influenciá-las. Mas as duas partes quebraram o acordo, ontem de manhã, e falaram com jornalistas.

O advogado Álvaro Borges Júnior reafirmou que a defesa se apegará à tese de negativa de autoria, alegando que a confissão dos réus foi obtida sob tortura. “O Serviço Reservado da PM (P2) foi criado para investigar seus companheiros, mas desviou-se de sua função original. Neste caso, trabalhou exclusivamente para arrancar a confissão dos acusados”, apontou o defensor. Borges confirmou ainda que os laudos de DNA e odontológico, nos quais confirmou-se que o cadáver encontrado em Guaratuba era de Evandro, serão contestados pela defesa.

Já o Ministério Público contesta a acusação de tortura e evoca os exames de lesão corporal realizado por peritos, à época das prisões. “Os laudos não apontaram qualquer lesão nos acusados”, disse Markovicz. A acusação também vai apresentar o laudo do especialista Sérgio Danilo Pena, que estima em 99,99% a chance de o corpo ser mesmo de Evandro. “Todos os elementos deram a convicção de que um ritual foi realizado e que os três são responsáveis pela morte de Evandro”, disse o promotor. (CS)

A cada julgamento, família revive todo o sofrimento

Desde quando o garoto Evandro Ramos Caetano desapareceu, há 12 anos, a família dele nunca mais teve sossego. Se, por um lado, a ausência do filho ainda causa dor e sofrimento aos pais do garoto, Ademir Batista Caetano e Maria Ramos Caetano, por outro, a pressão dos julgamentos dos acusados, da imprensa e da população também transtornam a família.

Durante essa semana os pais de Evandro pretendem acompanhar todo o desenrolar do júri, como fizeram em 1998, quando Celina e Beatriz Abagge foram julgadas. Na época, o casal acompanhou 33 dos 34 dias do julgamento, faltando apenas na sessão em que foram mostradas imagens encontradas de um corpo mutilado, sendo supostamente de Evandro. Segundo a irmã do pai do menino, Dalvina Caetano, desta vez Ademir e Maria também não viram as imagens.

Apreensivo, o casal ainda não conversou com a imprensa. A tia de Evandro contou que eles deverão ficar hospedados na casa dela até o momento da sentença. Durante uma conversa informal, Dalvina contou que, depois do desaparecimento de Evandro, a mãe teve acompanhamento psicológico durante cerca de dois anos. “Esperamos que desta vez, justiça seja feita. Todos nós já sofremos demais com tudo o que aconteceu. Cada vez que o caso é relembrado, uma nova batalha começa”, finalizou a tia.