O primeiro dia de aula dos alunos do Colégio Estadual Anita Canet, em Fazenda Rio Grande, foi marcado por um lamentável episódio de violência, envolvendo adolescentes que duelaram à bala na rua na frente da escola. Cerca de dez tiros foram disparados, enquanto 600 estudantes chegavam ao colégio. Priscila Martins Carneiro, de 12 anos, foi atingida por um tiro de raspão na cabeça e passa bem.

As aulas dos alunos de 5.º a 8.º série começariam às 13h. Por volta das 12h45, o movimento em frente ao colégio já era grande.

De repente, dois adolescentes, de 16 e 17 anos, trocaram tiros misturando-se entre pais e alunos. A lanchonete em frente a escola ficou com as paredes e grades crivadas de balas.

Em meio a correria e gritos, Priscila foi baleada. ?Quando ouvi os tiros, corri e ordenei que todos entrassem no colégio.

De repente, vi a garota sangrando com a mão na cabeça?, relatou o diretor do colégio, Almir Rogério Bezerra. Segundo contou, um professor, que também é enfermeiro, fez os primeiro-socorros enquando o Siate era chamado.

Depois do tiroteio, os adolescentes fugiram com as armas. O garoto, de 16 anos, é aluno do colégio e o outro, ex-aluno. A confusão entre eles começou na sexta-feira, quando discutiram em uma lan house. O mais velho atirou e, sem conseguir acertar o inimigo, foi procurá-lo ontem, na escola. Entretanto, amigos avisaram o adolescente, que também se armou no colégio.

Família

Os soldados Silveira e Risone, da Patrulha Escolar, já identificaram os dois garotos e foram até a casa deles. ?Não os encontramos, mas conversamos com os pais.

O que nos surpreende é que, tanto o pai quanto a mãe são apáticos, agem como se não fosse problema deles.

É a desestrutura familiar que resulta em adolescentes cada vez mais violentos?, disseram os policiais.

O adolescente de 16 anos já traz histórico de indisciplina no colégio e, no ano passado, agrediu a própria mãe no meio da rua. O diretor do colégio já sabia que o menor costumava andar armado e já tinha avisado os policiais.

?No ano passado, os policiais conversaram duas vezes com ele e com a família, mas nada adiantou. O que a gente percebe é que, durante a semana, a escola consegue impor algum limite, mas, no final de semana, eles ficam soltos e daí se envolvem em confusão?, completa o diretor.

Com a confusão ocorrida em frente ao colégio, as aulas foram suspensas. Pais amedrontados levaram os filhos para casa e a antiga reivindicação por mais segurança voltou a ser discutida. A escola conta com apenas uma viatura e dois policiais da Patrulha Escolar, que são responsáveis pelo policiamento em nove escolas do município e outras três de Mandirituba. ?Como neste caso e em muitos outros, a violência começa fora da escola e migra para dentro dos portões dos colégios, pois o que era para ser um lugar de ensino e aprendizado transformou-se em ponto de encontro para o acerto de contas?, finalizaram os policiais.

O que fazer com garotos delinqüentes?

A violência em frente à escola serviu para reforçar a pergunta que, nos últimos dias, não sai da cabeça de muitos brasileiros: até quando sentiremos medo de sermos mortos a qualquer momento, em qualquer lugar e sem motivo algum?

Esse episódio, em Fazenda Rio Grande, se junta à morte de João Hélio, de 6 anos, arrastado por ruas do Rio de Janeiro, na semana passada, em que também houve participação de um adolescente. Esses casos reascendem o debate sobre a reforma na pena aplicada a menores infratores. Hoje, o tempo máximo que um adolescente pode ficar apreendido é de três anos.

Para o promotor de Justiça de Fazenda Rio Grande, Paulo Conforto, a reforma na legislação não irá inibir a prática de crimes, mas a melhoria na educação pode coibir a formação de marginais. ?A maioria das criança e adolescente está na escola, mas a educação ainda é precária. É necessário melhorar a distribuição de renda, aumentar o desenvolvimento econômico e dar oportunidade para o jovem trabalhar. Os menores se envolvem com o tráfico, porque é a alternativa que encontram para ganhar dinheiro. São esses problemas que devem ser discutidos pela população?, analisa o promotor.

Ressocialização

A diretora do Educandário São Francisco, Solimar de Gouvêia, afirma que a solução não está no aumento da pena, e sim em propiciar oportunidades aos jovens para que eles tenham uma vida digna. ?Da forma como estão os presídios hoje, é muito difícil um adolescente se recuperar. Na unidade socioeducativa, por mais que ele fique apenas três anos, é tempo suficiente para que ele reflita e se torne uma pessoa melhor. O que importa não é o tempo da detenção, mas a qualidade do serviços prestado para a ressocialização?, diz Solimar.

Quanto ao papel da família, tanto o promotor quanto a diretora têm a mesma opinião. Para eles, são os pais que devem impor limites para que o jovem saiba distinguir o certo do errado. Sem a referência dada pela família, o jovem vai buscá-la nas ruas. ?Esse rweferencial é encontrado, muitas vezes, no comando de gangues e no poder que encontram em segurar uma arma?, comenta Solimar.