Apesar do crime, a rotina do
hotel não mudou desde então.

Uma porta de madeira, atrás do balcão de entrada, dá acesso à escada que leva ao quarto 302 – terceiro andar – do Hotel Rheno, no centro de Curitiba. O prédio antigo, sem elevador, é ladeado por outros que abrigam as conhecidas "lojas de turco" da Rua Pedro Ivo. O quarto, de menos de quatro metros quadrados, é quase monástico. Não há qualquer enfeite nem luxo. Um televisor antigo está preso à parede. Na cabeceira da cama de casal, um espelho trincado e um rádio embutido. O colchão é de péssima qualidade. Ao lado, o interfone e o controle remoto da TV.

Na parede, em frente à cama, uma janela com cortina pesada e suja que dá penumbra ao ambiente, mesmo sendo dia.

O quarto é usado pelas prostitutas do centro, que não são exigentes. No banheiro, onde o corpo de Carina foi encontrado, os azulejos são brancos. Um chuveiro na parede, o vaso sanitário e a pia. Nada mais. Por duas horas de uso, R$ 20,00, pagos na entrada. Ninguém pede documento ou identificação.

misterio30203020907.jpgA Tribuna ficou por duas horas no 302, numa tarde de terça-feira, no mesmo horário em que Carina e seu assassino ali estiveram. O lugar é tranqüilo, não se ouve o barulho da rua, mas é possível perceber movimento no corredor, mesmo com o televisor ligado.

O assassino tomou o cuidado de deixar o rádio com o volume alto, talvez para abafar o som da discussão que teve com a mulher ou seu pedido de socorro.

Sair do hotel é tarefa fácil.

É possível que não se encontre nem o porteiro. Já na rua, em questão de segundos, pode-se misturar ao movimento dos passantes ou entrar em qualquer loja, para disfarçar.

A partir daí, ninguém ficará sabendo quem esteve ou deixou de estar no 302.

 

Advogado de defesa é um sobrevivente da violência

Beltran Neto sobreviveu ao atentado no Morumbi Shopping, em São Paulo.

Depois de penar um ano encarcerado, sem recursos para pagar sua defesa, Peter Bicalho foi tocado por um golpe de sorte. Numa das visitas que fazia à cadeia, o jovem advogado Miguel Beltran Neto, 27 anos, interessou-se pelo caso. Ouviu várias vezes os apelos de inocência de Peter e resolveu ajudá-lo, gratuitamente. Juntou alguns laudos – provou que o sangue encontrado na roupa do acusado era de outra pessoa, que não Carina Pelligrinello, e que ela havia transado com dois homens na noite do crime – e pediu pela liberdade, alegando inocência. Peter saiu da cadeia em seguida, não só pelo esforço do advogado, mas também por decurso de prazo.

Beltran Neto trabalha no caso com paixão e acredita na inocência do cliente. ?Ele saiu do quarto 302 às 20h30, depois que o fotógrafo esteve lá. Chegou em casa e foi agredido pela namorada atual, que o aguardava. O horário da morte, segundo a perícia, é entre 22h e 22h30. A vítima teve duas relações sexuais, de acordo com os exames feitos no Instituto Médico-Legal e usava duas calcinhas, o que faz supor que outra pessoa esteve no quarto, após a saída de Peter, e cometeu o crime?, assegura o defensor. Beltran sustentará esta tese no julgamento, que ainda não tem data marcada.

Vítima da violência

Quando ainda era estudante de Direito, em São Paulo, em novembro de 1999, Beltran Neto saiu de casa para ir à faculdade e não teve aula. Naquele dia, sua mãe havia sonhado com ?dente? e alertou que o sonho poderia ser um preságio de ?morte na família?. Inclusive pediu ao filho que não saísse de carro. Pelo sim, pelo não, ele pegou um ônibus para ir à faculdade. Como não teve aula, resolveu ir ao cinema. Escolheu assistir ao Clube da Luta, com Brad Pitt e Edward Norton, na sala número 5 do MorumbiShopping. No mesmo cinema estava o estudante de medicina Mateus da Costa Meira, então com 24 anos, que num surto de raiva e armado com uma metralhadora AR-10 interrompeu o filme, atirando contra a platéia. Três pessoas morreram e cinco outras ficaram feridas.

Beltran Neto estava na oitava fileira de poltronas. Foi salvo por uma das vítimas fatais, a fotógrafa Fabiana Lobão Freitas, 25. Fabiana tentou sair do cinema e passou por cima da poltrona de Beltran Neto, servindo de escudo para ele. ?No começo pensei até que era uma pegadinha de TV. Só quando vi as balas cortando as poltronas é que tomei ciência do que estava acontecendo. Depois de cerca de 40 tiros, levantei e fui até o rapaz com a metralhadora. Eu e outros dois rapazes conseguimos desarmá-lo e imobilizá-lo até a chegada dos seguranças e da polícia?, recorda o advogado, que foi uma das principais testemunhas do brutal episódio.

A dura experiência do contato direto com a violência e o incentivo de um professor da faculdade o transformaram num criminalista. ?Enveredei por este caminho porque amo advogar, mas não sou um acusador. Serei sempre um defensor. Mesmo tendo presenciado o ato e de Mateus Meira, até hoje Beltran Neto assegura que o rapaz, devido à sua loucura, deveria estar segregado numa clínica para pessoas com disturbios e não numa penitenciária, como está até hoje. (MC)

*Qualquer pessoa que tenha informações que possam levar ao esclarecimento do ?mistério do 302? pode procurar a polícia ou fazer contato pelo e-mail   policial@tribunadoparana.com.br.