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Carina se dizia apaixonada por Peter, mas não largava o marido.

Peter dos Santos Bicalho, 25 anos, apesar de ainda jovem, tem seus percalços. Já respondia a outro inquérito policial, por furto, instaurado no 2.º Distrito. Boa pinta, não tinha dificuldades para arrumar namoradas e durante oito meses teve um caso com Carina, mesmo sabendo que ela era casada e tinha dois filhos. Segundo afirmou, Carina o perseguia até depois de terminado o relacionamento e de ter voltado a viver com o marido e os filhos.

Em sua defesa, conta que foi procurado, dois dias antes do crime, por Adriano, marido de Carina. Ele lhe pediu "um favor". Disse que pretendia fazer um flagrante de adultério da mulher, e que somente Bicalho poderia fazê-la ir até um hotel de alta rotatividade, no centro. Combinaram – de acordo com a versão do acusado – que ele transaria com Carina e deixaria a porta do quarto aberta, para que um fotógrafo entrasse, tirasse fotos e fosse embora.

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Em cima da cama do 302 ficaram os pertences da vítima.

Pelo "serviço", receberia o Celta que Adriano tinha comprado para Carina ir para o cursinho pré-vestibular, à noite. Depois do "flagra", que Bicalho insiste em dizer que aconteceu, ele alega que se vestiu e foi embora, deixando Carina viva e chorando. Segundo ele, alguém a matou depois de sua saída ou ela se matou.

A versão de Bicalho até se enquadra com o perfil de Carina, que já havia tentado suicídio pelo menos quatro vezes; e também justifica o fato de ter sido encontrado com o carro da vítima. No entanto, Adriano nunca confirmou este "acordo". O fotógrafo citado pelo acusado jamais foi encontrado nem ninguém do hotel viu entrar outra pessoa naquele período em que os dois estiveram lá.

Vida de traições

Em longo e dramático depoimento, Adriano Pellegrinello desnudou a vida de Carina para a Justiça. Revelou as traições da mulher, a doença – ela sofria de psicose maníaco-depressiva – e suas juras de ?se transformar em uma pessoa legal e não aprontar mais?, que sempre o convenciam a retomar o casamento e ?tentar mais uma vez?.

Os dois se conheceram em Rondônia, em 1998, onde ela morava e ele estava trabalhando. Ela, na época, tinha 17 anos. Namoraram e a jovem engravidou. Tiveram o primeiro filho. Em 2000, nasceu o segundo garoto. No ano seguinte, quando já moravam em Londrina, eles se casaram no religioso. Os pais de Carina mudaram-se para Portugal. A jovem passou a apresentar desvios de conduta. Gastava muito, provocando dificuldades financeiras à família. Teve os cartões de crédito e o talonário de cheques confiscados pelo marido.

Por conta do trabalho, Adriano viajava muito. Em 2002 arrumou emprego em Porto Alegre. Mudou-se para lá. Carina ficou em Londrina, com os filhos, por mais dois meses, para ajeitar a mudança e então seguiu para o sul. Em 2002 ela foi a Portugal, com os filhos, visitar os pais. Neste período Adriano descobriu a primeira traição. Ela teve um caso em Londrina com um homem chamado Joel. Com a descoberta do marido, ela tentou se matar, tomando remédios e bebidas alcoólicas. Foi parar em um hospital.

Ainda em 2002, usando o carro que tinha ganho do pai, Carina saiu de Porto Alegre, foi para Londrina e de lá seguiu para Portugal, viajando com Joel. Tentou apresentá-lo aos pais, como seu ?amigo?, mas os pais não acreditaram e o tocaram de lá. Ela seguiu para a Espanha e foi morar com alguns brasileiros, conforme contou ao marido, dizendo que precisava de ?um tempo?. Os filhos ficaram em Portugal com os pais dela, que resolveram voltar a morar em Rondônia e trouxeram as crianças para Adriano.

O rapaz mudou-se para Curitiba com os filhos. Carina voltou para Londrina e lá ficou internada em um hospital por mais algum tempo. Em fevereiro de 2003 ela pediu para voltar a Curitiba, pela saudade que tinha dos filhos. Adriano permitiu sua volta e colocou-a morando em um apartamento, com duas amigas. Lá ela conheceu Peter Bicalho, iniciando o relacionamento com ele.

Adriano arrumou trabalho em Recife e mudou-se outra vez. Carina, que estaria usando drogas, foi internada na Clínica Porto Seguro, em Curitiba, por Bicalho. Saiu da clínica por vontade própria e passou a procurar o marido, pedindo para reatar o casamento, alegando que estava com Bicalho porque não tinha onde ficar. Adriano a aceitou de volta, permitindo que fosse ao seu encontro em Recife. Lá, soube pela mãe de Bicalho, através de um telefonema, que a jovem só queria ?arrancar dinheiro? dele. Houve nova briga e Carina mais uma vez tomou remédios e álcool e foi hospitalizada em estado grave. Quando se recuperou, prometeu que iria tomar jeito. Em fevereiro de 2004 o casal retornou a Curitiba. Nos quatro meses que se seguiram, ele a presenteou com o Celta, para que pudesse estudar à noite, no cursinho pré-vestibular em que estava inscrita. Neste cursinho, conheceu outro rapaz, um sargento da Aeronáutica, e passou a namorá-lo, garantindo que estava separada do marido. Adriano chegou a encontrar uma foto do rapaz entre os pertences dela, mas fez vistas grossas e aceitou a desculpa de que se tratava apenas de um amigo. Ela também insinuou-se para um professor, que chegou a cortejá-la, mas nada houve entre eles.

No dia do crime, Adriano telefonou para ela, pedindo que levasse seu material de futebol, para que disputasse uma partida com amigos após o trabalho. Ela fez a entrega e desapareceu. Só foi vista novamente pelo marido no necrotério do Instituto Médico-Legal.

*Na edição de amanhã, conheça detalhes do quarto em que ocorreu o crime e da história dramática que o advogado de defesa viveu num cinema, em São Paulo.