Há cerca de dois meses, os moradores da Vila das Torres, em Curitiba, vivem em constante clima de terror, a ponto de não se sentirem seguros nem mesmo dentro de suas próprias casas. A tranquilidade vem sendo violada justamente por quem deveria proteger a comunidade: a Polícia Militar (PM). Os relatos dão conta de que policiais têm invadido residências sem mandados judiciais, feito revistas e abordagens arbitrárias, e agredido moradores. As denúncias já foram encaminhadas à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e serão levadas ao Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

“É todo dia. Para eles [policiais], somos todos bandidos só porque moramos na favela. Se cobramos cidadania, é desacato. Se reclamamos, somos presos. Hoje, nós temos mais medo da PM do que do próprio tráfico”, afirmou o líder comunitário Marcos Eriberto dos Santos, o Marcão.

O caso mais recente aconteceu no início da tarde de quarta-feira (13), quando um atendente de telemarketing passava seu horário de almoço no sobrado em que mora com a família. Segundo os moradores, policiais que patrulhavam a rua pediram que ele saísse de casa, para que fosse revistado. Como o rapaz se negou, os PMs teriam invadido a casa e o retirado à força. Houve tumulto e ele e a irmã acabaram presos por desacato.

Um vídeo gravado pelo celular de um morador indica excessos: mostra o rapaz sendo tirado da casa e jogado com violência na viatura por PMs. Entre os gritos, a mãe dele suplica: “Para de bater no meu filho. Pra quê fazer isso com ele?”. O jovem teria sofrido escoriações no pescoço e levado socos no rosto.

A reportagem chegou à rua pouco depois das prisões, quando três viaturas ainda estavam no local (uma delas era rebocada). Os policiais estavam sem a “biriba” (tarja de identificação) em suas fardas. Enquanto isso, a mãe dos jovens detidos corria entre vizinhos, para emprestar R$ 500 para pagar um advogado para os filhos.

“Meu filho veio em casa do trabalho para almoçar e é preso. Ele não fez nada. E agora? Ele vai perder o serviço. Quem vai pagar por isso?”, disse com os olhos marejados.

O episódio parece estar longe de ser uma exceção. Moradores garantem que os abusos se tornaram cotidianos. Outra família conta que, também nesta semana, teve a casa invadida arbitrariamente por policiais. A porta metálica da sala ainda está amassada e já não fecha direito. A moradora, uma manicure, diz não ter ideia do que motivou a ação.

“Eu perguntei [o motivo da abordagem] e me chamaram de piranha e de vagabunda. Me mandaram calar a boca, senão poriam droga em mim e me levavam presa”, contou.

Na semana anterior, a casa de outro vizinho teria sido arrombada também em plena luz do dia, quando não havia ninguém na residência. “Reviraram tudo. Falaram que se alguém falasse alguma coisa, eles voltavam depois pra catar”, contou um morador.

Moradores gravam abordagens para coibir os abusos
Os celulares com câmera deixaram de ser apenas um aparelho de comunicação da Vila Torres. Tornaram-se também um instrumento de segurança. Os moradores usam os telefones para gravar as abordagens policiais como principal forma de tentar coibir abusos. “A PM chega, a gente já pega o celular pra gravar”, disse o líder comunitário Marcos Eriberto dos Santos.

Uma gravação obtida pela reportagem mostra policiais revistando jovens na rua. Uma mulher diz que está filmando para evitar que os PMs forjem um flagrante, plantando drogas nos rapazes. O agente ironiza: “Ah, coitadinho. Não faz nada de errado, né? (…) Nenhum deles tem passagem [pela polícia], né? São tudo gente boa, né?”

Em seguida, após receber ordem de “calar a boca”, a mulher diz que “não deve nada”. “Vai ficar devendo já, já, se continuar com essa boquinha”, ameaça o PM.

Até as crianças usam a estratégia. Quando a reportagem esteve na vila, duas meninas proc,uraram a reportagem para mostrar fotos que elas tiraram durante abordagens da PM. Uma delas, mostrava policiais dentro de uma casa. A outra registrava um policial sem a tarja de identificação. “Foi ele que deu um chute na minha prima. Quando viu que eu tava com o celular, me chamou de vagabunda e disse que ia me prender”, contou a garota, de 12 anos. “Medo eu tenho, mas cansa ver nossos colegas apanhando de graça.”