A “morte” em cima do
arco-íris, símbolo dos homossexuais.

Seis homossexuais foram assassinados este ano, de acordo com dados fornecidos pelo Grupo Dignidade. Ainda segundo a entidade, desde 1992 mais de 100 gays foram mortos e muitos dos casos não foram esclarecidos pela polícia. O número de atentados contra homossexuais levou cerca de 50 manifestantes à Boca Maldita, ontem pela manhã.

Eles entregaram panfletos à população explicando o motivo do protesto e uma cartilha denominada “Gay vivo não dorme com o inimigo”. Simbolizando a morte, uma pessoa fantasiada alertava para o perigo que ronda os homossexuais. Um triângulo rosa continha recortes da Tribuna, mostrando as notícias dos assassinatos.

De acordo com o coordenador do Grupo Dignidade, Allan Johan, as dicas são do grupo gay da Bahia. “A maior preocupação é que algumas dessas vítimas levaram os criminosos para casa”, ressaltou. “Não temos como obter dados das agressões contra homossexuais. Sem dúvida, devem ultrapassar o número de assassinatos”, explicou. Ele lembra que, dos seis casos ocorridos desde janeiro, quatro homossexuais foram assassinados depois de levar o criminoso para dentro da residência. “Isso ocorre devido ao preconceito social. Muitos homossexuais são obrigados a omitir sua orientação sexual em casa, no trabalho, assim como para a vizinhança e amigos”, frisa Johan.

Vida dupla

“Eles acabam tendo vida dupla e não têm um namorado fixo”, comentou Luciane Machado Baptista, assistente social do Grupo Dignidade. “Por não assumirem a sua opção sexual, os homossexuais apelam para os falsos garotos de programa. Isto pode custar a vida”, alertou.

Luciane frisou que o preconceito é muito grande, tanto para os homossexuais quanto para os garotos de programa. “Chamamos esses homicidas de falsos garotos de programa, porque a maioria desses rapazes não são marginais”, disse a assistente social.

Investigações são complicadas

Dos seis crimes envolvendo homossexuais, três foram elucidados, de acordo com o delegado Armando Braga, da Delegacia de Homicídios. Ele disse que as investigações de homicídios em que a vítima é homossexual são mais complicadas devido ao grande número de relacionamentos.

Braga citou o caso do analista de sistemas Cláudio Antônio Soncin, 38 anos, morto a golpes de faca dentro de sua casa, no Jardim das Américas, em 7 de fevereiro deste ano. Em menos de uma semana, Wesley Cezar de Oliveira, acusado de ser o autor do crime, estava atrás das grades. “Nesse caso tivemos sorte porque a vítima tinha um álbum de fotografias de homens nus e costumava anotar seus relacionamentos e o nome das pessoas em agendas. Mas normalmente isto não acontece”, lembrou o policial.

Na rua

Casos como o do travesti Elisandro Henrique de Souza, 22 anos, mais conhecido como “Ketlin”, são mais complicados. “Não porque ele é homossexual, mas porque ocorreu na rua. As testemunhas não ajudaram muito na identificação do assassino”, salientou. O autor, de acordo com a investigações, é um indivíduo conhecido pelo apelido de “Rato”, que até o momento não foi identificado.

O delegado enfatizou que procura investigar os crimes envolvendo homossexuais com mais afinco dos que os outros, por se tratar de uma parcela da sociedade discriminada. “É nosso dever proteger a minoria”, disse.

Outra dificuldade, citada pelo delegado, é de que muitos homossexuais se afastam do convívio familiar e não comentam seus relacionamentos amorosos.

Braga elogiou as dicas divulgadas pelo Grupo Dignidade. “Elas não valem só para os homossexuais, mas para os heterossexuais também”, ressaltou.