Os plantonistas da Delegacia do Adolescente, no Tarumã, veem todo tipo de mãe dos menores infratores. Há as que chegam revoltadas e dão bronca ou até mesmo uns tapas nos filhos, outras chegam envergonhadas e algumas não acreditam no que está acontecendo e desmaiam. Também há as que acham que o filho não fez nada, outras não se surpreendem e algumas, cansadas, dão graças se os filhos ficarem internados. Mas independente do tipo de mãe, geralmente é a figura feminina da casa (mãe, avó, tia ou madrinha) que lida com a criminalidade dos adolescentes. Elas não desistem de tentar recuperá-los e são muito poucas as que os abandonam.

Engana-se quem pensa que apenas as classes mais baixas se envolvem com o crime. Pela DA passam famílias de todas as rendas. Os jovens que se envolvem com crimes mais graves, como homicídios, roubos e receptação de veículos roubados, por exemplo, são os mais pobres. Tem até mesmo os que recebem dinheiro de facções criminosas para tentar passar drogas, cigarros, dinamites, serras e brocas para dentro das cadeias. Mas os mais ricos também usam e traficam drogas, furtam, picham muros e depredam patrimônio público.

Culpa

Algumas mulheres se culpam pela situação criminal dos filhos. Outras não têm nenhum peso na consciência. É o caso de uma dona de casa, de 68 anos, que criou o neto desde os três meses, já que o pai era usuário de drogas e a mãe se mudou para a Espanha um ano depois do nascimento do menino. O jovem foi apreendido no ano passado, aos 17 anos, por roubo a uma estação-tudo na Avenida Marechal Floriano Peixoto, com arma de brinquedo. Não chegou a ser internado, mas teve que se comprometer com o juiz em estudar, trabalhar e se tratar do uso de drogas. Como não cumpriu nada disto, deve ficar mais um tempo “enrolado” com a Justiça e sua avó dá “graças a Deus” se ele ficar internado num Centro de Sócio Educação (Cense).

A avó diz que não sente um pingo de culpa ,porque diz que toda a educação que aprendeu com seus pais, passou para os filhos, netos e bisnetos. “O problema é que os jovens de hoje não aprendem o que ensinamos. Então é melhor ele aqui na DA do que morto. A minha obrigação eu fiz”, afirmou a idosa. Ela diz que sabia que o neto andava com o primo fazendo coisas erradas, principalmente usando drogas, mas não pensou que pudesse chegar a ponto de roubar.

“Ela tem de tudo. Se quisesse, poderia comprar aquela calcinha. Não precisava furtar”, lamentou uma costureira, de 50 anos, que acompanhava a filha de criação, de 16 anos, numa audiência no Ministério Público (MP), no mesmo complexo onde fica a DA, o Cense, a Defensoria Pública e a Vara de Infratores, todos para atendimento a adolescentes. “Na hora que cheguei à delegacia fiquei revoltada. A vontade era de bater. Mas não sinto culpa. O que tinha que ensinar a ela ensinei”, disse a costureira.

Desistir, jamais!

A tia de um garoto, de 15 anos, flagrado traficando drogas, não estava nem um pouco surpresa com a apreensão do sobrinho. Ela já esteve outras cinco vezes em audiências, para acompanhar o irmão mais velho do adolescente, quatro vezes apreendido por tráfico de drogas e uma por homicídio. A tia diz que a mãe dos garotos, que tem cinco filhos e teve o marido assassinado, é cadeirante e diz que não tinha condições de acompanhar as atividades de todos. Por isto aceitou a vontade do adolescente de morar com a tia, que aos 27 anos também já é mãe de quatro filhos, está grávida do quinto e no segundo casamento, já que seu primeiro companheiro também morreu assassinado.

“Os meus filhos nunca se envolveram com nada errado, porque procuro estar sempre junto. Só de olhar para eles eu sei quando tem algo errado. Já esses dois sentem falta do pai, de alguém que tenha pulso firme com eles, já que a mãe não se importa. Mas apesar disso tudo, foi por eu dar ,votos de confiança no mais velho que ele se recuperou e saiu dessa vida”, desabafou a tia, que não pensa em desistir do jovem.