Foto: Átila Alberti

Algumas ruas da favela são redutos do tráfico e ninguém entra.

A incontrolável violência no Parolin está tomando proporções tão grandes que não são apenas os moradores que sofrem. Nos últimos meses, os Correios decidiram alterar o horário dos carteiros que trabalham no bairro devido às ameaças que eles vinham sofrendo. Além disso, desde 2002 a entrega de correspondência em determinadas ruas da região foram suspensas, para proteger os funcionários.

?Durante as entregas, que aconteciam à tarde, os carteiros testemunhavam crimes no bairro e passavam a ser ameaçados. Há cerca de dois meses, mudamos o horário deles para o período da manhã e as incidências diminuíram?, afirmou Haroldo Lacerda da Silva, gerente do Centro de Distribuição Domiciliar (CDD) do Rebouças, responsável pelas entregas no Parolin. De acordo com ele, um dos funcionários, que teria presenciado um assassinato, teve que pedir licença por causa do abalo psicológico que sofreu.

Cancelamento

Além da mudança de horário, outra medida tomada pelo órgão foi o cancelamento da distribuição em algumas ruas consideradas de maior perigo. ?Há cerca de 5 anos, após diversas agressões e roubos sofridos por carteiros, entramos com uma medida cautelar solicitando o cancelamento do envio nessas ruas, o que foi autorizado pela área jurídica dos Correios?, explicou Haroldo. Até hoje, a entrega está suspensa nesses locais, gerando reclamações de moradores.

De acordo com o gerente, foram desenvolvidas algumas idéias a fim de evitar que as pessoas não recebam as correspondências. ?Criamos uma Caixa Postal Comunitária, que ficava numa igreja do bairro, onde os moradores dessas ruas podiam coletar seus itens. Porém, no início do ano o pessoal da igreja acabou com o serviço?, lamentou. Desde então, as correspondências ficam na sede do CDD, no Rebouças. Segundo Haroldo, a Associação dos Moradores do Parolin está providenciando um local no bairro para que volte a funcionar a Caixa Postal Comunitária. ?Quando isso acontecer e se as pessoas aderirem ao serviço, o problema será resolvido?, disse o gerente.

O presidente da Associação afirmou que já cadastrou as 830 famílias que não recebem as correspondências e solicitou a instalação das caixas, mas que ainda não recebeu resposta dos Correios.

De acordo com o gerente, a região onde foi suspensa a distribuição de correspondência fica no meio da favela, no final de algumas ruas, localizadas entre a Rua Brigadeiro Franco e o Rio Vila Guaíra.

Nós conhecemos o risco

Patrícia Cavallari

Entrar no Parolin, mesmo durante o dia, é enfrentar um jogo arriscado. A sensação é de muita insegurança, o que justifica a ausência de carteiros, taxistas, e entregadores em geral. Ontem, a reportagem da Tribuna presenciou o modo como agem os traficantes e como intimidam aqueles que entram em seu reduto.

A reportagem chegou no bairro às 15h para conversar com os moradores que estão desprovidos de vários serviços em razão da violência. Na Rua Brigadeiro Franco e transversais havia apenas movimento de carros. As calçadas estavam vazias, provavelmente em razão da chuva. Entretanto, em questão de minutos, os jornalistas perceberam que a presença deles incomodava. Andando pela região, a pé, durante o trajeto o silêncio foi substituído por uma seqüência de assovios. Ao redor, vários homens saíam dos becos e pareciam tomar seus ?postos? em locais estratégicos. Encostados em muros, postes e nas portas de bares, eles se comunicaram através dos silvos. Os ?olheiros? do tráfico monitoraram os jornalistas.

Em um bar, situado na esquina da Rua Brigadeiro Franco com Rua Antônio Parolin Júnior, onde a equipe parou, homens apontavam e faziam sinais. Os repórteres se abrigaram na Associação de Moradores do bairro e lá receberam a recomendação: ?Eles sabem que vocês são da imprensa. É melhor irem embora, rápido?.

O conselho foi acatado e depois, por telefone, moradores confirmaram: ?Quando chega alguém diferente eles avisam os traficantes. Eles não gostam da imprensa porque vocês dão prejuízo ao tráfico. Quando é divulgada uma matéria sobre o tráfico ou a violência no Parolin, chove policial aqui e os PMs ?mordem? os traficantes para deixá-los quietos?, disse um dos moradores.

De acordo com o tenente-coronel Jorge Costa Filho, chefe do setor de Comunicação Social da PM, a corporação não tem registros de extorsões na região, entretanto, ao saber da denúncia, ele fez um pedido: ?Se perceberem que os policiais são coniventes com o tráfico, as pessoas devem denunciar. A ligação é anônima e o nosso telefone é o 3304-4800?.