Hoje faz 19 anos que João Bossi, 58 anos, recebeu a notícia do desaparecimento de seu filho Leandro, em Guaratuba. O garoto estava a uma semana de completar 8 anos quando sumiu sem deixar pistas.

Desde então, a vida de João é um misto de tristeza e esperança de um dia reencontrar o filho – que completaria 27 anos. “Tenho certeza de que ele foi raptado e vendido para o exterior”, afirma João, cujo sofrimento deixou marcas no corpo e alma.

O delegado Luiz Carlos de Oliveira, atual chefe da Divisão de Crimes contra o Patrimônio da Polícia Civil, na época foi designado para investigar o desaparecimento de Leandro.

Atualmente ele concorda com a opinião de João Bossi, que o garoto foi levado para o exterior em possível negociação de tráfico de crianças. Ele também acha que Evandro Ramos Caetano, apesar de ser dado como morto, foi levado para fora do Brasil e que o aparecimento de dois cadáveres de crianças num matagal de Guaratuba, na época do crime, não passou de uma farsa para encobrir o comércio de menores.

DNA

Luiz Carlos questiona o exame de DNA feito num laboratório de Minas Gerais, há quase 20 anos, que aponta o corpo mutilado de um garoto como sendo o de Evandro.

“Este DNA foi feito a partir de um dente de leite enviado ao laboratório, cedido pela mãe do menino. Não por material retirado do cadáver encontrado”, assegura. Quanto ao segundo corpo, que vestia roupas de Leandro, não passava de uma ossada que, em exames, constatou-se ser de uma menina. Este disparate jamais foi investigado a contento e nunca se soube de quem era a ossada.

Os processos que apuraram o sumiço dos dois meninos são cheios de falhas e incertezas. Tanto que o delegado anuncia que paga do próprio bolso novo exame de DNA dos restos mortais do “suposto Evandro”, que estão sepultados no cemitério antigo de Guaratuba, no mausoléu da família. “É só a família ou a Justiça autorizar novo exame, agora com equipamentos mais modernos e mais precisos, que eu arco com as despesas”, garante.

Cemitério

O delegado diz ainda que o corpo e a ossada encontrados no matagal podem ter sido retirados de um cemitério em outro Estado (talvez Santa Catarina) para encobrir a venda dos meninos e acusar de assassinato pessoas influentes no município naquela época, já que Celina e Beatriz eram esposa e filha, respectivamente, do então prefeito Aldo Abagge.

Semelhanças entre os casos dos meninos

Janaina Monteiro

Leandro desapareceu em 15 de fevereiro de 1992. O menino saiu de casa pela manhã e foi até o hotel onde a mãe trabalhava. De lá, seguiu novamente para casa trocar de roupa. Após deixar a residência, o menino nunca mais foi encontrado.

“É uma luta incansável, interminável. Parece que estou andando num túnel que não tem fim”, define João Bossi. Evandro sumiu dois meses depois de Leandro, também em Guaratuba e pela manhã, quando ia para casa, saindo da escola em que a mãe trabalhava.

Celina Cordeiro Abagge e a filha dela, Beatriz Abagge, e mais cinco homens foram acusados de matar o Evandro num suposto ritual de magia negra. Celina e dois dos acusados foram absolvidos em julgamento popular. Outros três homens foram condenados e já cumpriram suas penas. Beatriz, cujo júri foi anulado, deverá se sentar novamente no banco do réus ainda este ano.

Investigação

Em 2007, a então delegada do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), Márcia Tavares dos Santos, informou ao Paraná Online que sua delegacia havia encerrado o caso a partir do momento em que a Polícia Federal iniciou as investigações sobre os desaparecimentos de Leandro, de Evandro Ramos Caetano e de Guilherme Caramês (em Curitiba).

Angústia que n&at,ilde;o termina

Janaina Monteiro

Átila Alberti
João: insônia e falta de ar.

Para o João Bossi, todos esses anos parecem contar muito mais que as quase duas décadas. “Tenho 58 anos e estou com o cabelo todo branco. Perco noites de sono. Sinto falta de ar”, reclama João, já com a saúde debilitada.

Ontem pela manhã, ele veio a Curitiba para procurar ajuda da imprensa, o único meio capaz de fazer com que o caso não caia no esquecimento. “Nem sei mais como está a investigação. Trocaram tanto de delegado”, reclamou.

Em agosto do ano passado, João teve a casa destruída por um incêndio. Hoje, ele vive na casa do filho, também em Guaratuba, e conta com a ajuda de amigos e parentes na reconstrução de seu lar. Depois do sumiço do filho, João se separou da mãe de Leandro, casou-se novamente e teve três filhos.