Hedeson A. Silva / Tribuna
Desembargadores decidiram que acusados
devem ser levados a juri popular.

Por unanimidade de votos os desembargadores da 1.ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça decidiram, ontem à tarde, encaminhar para júri popular os delegados Maurício Fowler Bitencourt e Francisco José Batista da Costa e os investigadores Carlos Henrique Dias e Daniel Santiago Cortez, acusados de envolvimento no assassinato do estudante Rafael Rodrigo Zanella, ocorrido há quase seis anos, em Santa Felicidade.

A seção foi acompanhada pela mãe do estudante, a empresária Elizabeta Zanella, que não conteve as lágrimas ao ouvir a decisão. “Eu estava temerosa de que a Justiça os livrasse do júri popular, mas o resultado foi positivo e deu mostra de que vale a pena lutar para se conseguir a punição dos responsáveis”, disse ela, salientando que a decisão do júri popular será respeitada pela família. “Seja qual for o resultado do júri, será uma escolha da sociedade e nós vamos acatá-la”, assegurou.

De acordo com o advogado da família Zanella, Júlio Militão da Silva, o processo deverá ser encaminhado ao 2.º Tribunal do Júri de Curitiba, que então irá marcar a data para o julgamento. “Todos que colaboraram de uma forma ou de outra para a morte de Rafael responderão por isso”, comemorou o defensor.

Fundação

Paralelamente ao processo criminal a família também entrou com um processo cível contra o Estado, pedindo indenização financeira, já que o jovem foi morto por policiais durante uma desastrada ação que buscava prender traficantes de drogas. Caso esta ação seja ganha, o dinheiro recebido será usado para criar uma fundação em nome de Rafael, para auxiliar famílias que tenham sofrido situações semelhantes.

“Será o povo irá pagar essa dívida. Então nada mais justo do que reverter essa quantia para ajudar a população na busca de Justiça”, comentou Elizabeta. O julgamento da ação deverá acontecer no mês que vem.

Condenados

Três dos envolvidos no caso – os investigadores Airton Adonski Júnior e Reinaldo Siduorski, e o alcagüeta Almiro Schimidt (autor do disparo) – já foram julgados e condenados a penas superiores a 20 anos de reclusão. Os quatro outros participantes da trama (todos lotados na época no 12.º Distrito Policial) haviam entrado com recurso para tentar escapar do júri popular, alegando que não haviam participado da morte do rapaz. Recurso este que ontem foi negado pelos desembargadores.

A familia de Rafael aguarda agora uma resposta da própria Polícia Civil, que mesmo tendo transcorrido tanto tempo, não tomou nenhuma providência administrativa contra os acusados. Os dois policiais condenados foram expulsos da cinstituição por força da própria condenação. Já os demais continuam no exercício de suas funções. “Quem sabe agora que a Secretaria da Segurança está sob o comando direto do governador Roberto Requião a situação mude e esses indivíduos sejam devidamente punidos pela instituição que os abriga”, lembrou a mãe de Rafael.

Morte

Rafael Zanela, então com 19 anos, foi morto quando os policiais faziam uma suposta diligência para prender um traficante de drogas. O carro dele foi interceptado na rua e logo o alcagüeta que acompanhava a operação disparou sua pistola acidentalmente, matando o rapaz com um tiro na cabeça. Para encobrir o crime, os demais policiais e delegados simularam que Rafael era traficante e ele e seus amigos (havia mais três rapazes dentro do veículo) tinham reagido à prisão. O próprio delegado Fowler teria colocado maconha e uma arma no carro e nas roupas de Rafael. Os três amigos da vítima foram presos, torturados e mantidos incomunicáveis no xadrez da delegacia por vários dias, recebendo ordens para que confirmassem a versão criada pelos policiais.

Somente quando os jovens foram soltos e puderam falar em juízo é que toda a verdade veio à tona. “Além de matar um inocente eles ainda tentaram denegrir a imagem dele, que era uma pessoa de bem. Não vamos aceitar isso nunca”, declarou Elizabeta.