Admilson (à esquerda) confessou que
estuprou e assassinou a jovem Jaciara.

Escondia-se em Curitiba o autor de um crime que chocou Santa Catarina. Admílson Fernandes Machado, 42 anos, um vendedor de livros e revistas, de voz mansa, razoável expressão oral e aparentemente pacato, é assassino confesso da estudante Jaciara Rosiane Ramos, 15 anos. A menina, que morava em Joinville (SC), foi estuprada e morta na areia da praia de Enseada, São Francisco do Sul, na passagem de ano de 2003 para 2004.

Admílson tinha mandado de prisão expedido pela Justiça catarinense e foi reconhecido através de uma chamada do programa Linha Direta, da TV Globo, levado ao ar ontem à noite. Dias depois do crime, ele mudou-se para um apartamento na Avenida Marechal Floriano Peixoto, Rebouças, onde vivia com uma mulher. A prisão ocorreu quarta-feira à tarde, num supermercado de Paranaguá, onde estava a trabalho. Participaram da detenção a polícia de Santa Catarina e a Delegacia de Homicídios do Paraná.

Pista

A estudante tinha ido à praia com a família para assistir a um show de rock e à queima de fogos. Pouco antes da meia-noite, um rapaz moreno a procurou, disse-lhe algo no ouvido e ela riu. Ele a pegou pelo braço e os dois saíram – foi a última vez em que Jaciara era vista com vida. Horas depois, ela foi encontrada nua numa área escura ao lado do posto de salva-vidas, com marcas de agressão na face e sufocada na areia da praia. Mais tarde, a polícia descobriria que o crime ocorrera no instante da queima de fogos – por isso ninguém ouviu os gritos da jovem.

Ao cometer o crime, o assassino deixou cair o telefone celular. O aparelho estava registrado em nome de Admílson e, a partir dos contatos registrados na memória a polícia descobriu que ele vivia numa pensão em Joinville. Pouco depois do assassinato, ele abandonou a hospedagem e o emprego e desapareceu. “Este sumiço, somado aos antecedentes de Admílson, não deixaram dúvidas quanto a sua culpa”, falou o delegado de São Francisco do Sul, Ivan Brandt.

Natural de Belém (PA), o acusado já respondeu por roubo e estupro em São Paulo, em 1983; por estupro, sedução e corrupção de menores em Curitiba; por corrupção de menores em Ponta Grossa e teve duas passagens na delegacia de Joinville por abordar mulheres no intuito de seduzi-las.

O acusado confessou a morte de Jaciara e descartou a participação de um outro homem, que chegou a ser detido em Santa Catarina como suspeito. A polícia agora investiga a possibilidade de Admílson ter cometido outros crimes semelhantes, antes e depois de São Francisco do Sul -como a morte de uma estudante londrinense no Litoral do Paraná, em janeiro de 2004. “Não há nada de concreto, mas todos os casos desta natureza serão investigados”, falou o titular da Delegacia de Homicídios, Luiz Alberto Cartaxo. Admílson foi indiciado por homicídio triplamente qualificado, estupro e atentado violento ao pudor.

“Que Deus a proteja”

Admílson Fernandes Machado se diz um homem doente. Ele pediu à polícia para passar por um exame de sanidade mental e assim tentar provar a incapacidade de responder por seus atos.

Ontem, entrevistado pela imprensa paranaense e catarinense, disse reconhecer que “uma pessoa normal não faria isso”. “A prisão vai me tirar um peso. Quero ser tratado e voltar a dormir em paz”, afirmou, para em seguida pedir desculpas à família da estudante assassinada. “Sei que dificilmente vão me perdoar. Mas quero que Deus a proteja, onde estiver”, disse.

Admílson afirmou ainda que não conhecia a garota – fato que a polícia confirma – e que não cometeu outros crimes da mesma natureza. E que decidiu se esconder em Curitiba porque já havia morado na capital paranaense.

A polícia não divulgou detalhes de sua remoção para Santa Catarina, mas é certo que não será transferido para São Francisco do Sul, local do assassinato. O clima de revolta na cidade pode precipitar tentativas de linchamento ao acusado – desde a noite de quinta-feira, quando surgiu a notícia da prisão, algumas pessoas se concentravam na delegacia da cidade.