Após ter batido com a mão no lado esquerdo do capô de um Celta, o comerciante Odair Fernandes da Silva, 46 anos, casado e pai de quatro filhos (o quarto bebê nascerá daqui a dois meses) foi agredido verbalmente em pleno centro, pela condutora do veículo, instrutora de auto-escola, por ser negro. O caso de racismo revoltou Odair, que registrou queixa no 1.º Distrito Policial.

Morador no Jardim Social, onde também possui um comércio, Odair contou que não acreditava na existência de racismo no Brasil, até ?sentir na pele? a reação da motorista do Celta. Segundo ele, a motorista, ao ouvir o barulho da batida no capô, puxou o freio de mão do carro, desceu gritando: ?Tem que ser preto, mesmo!?. Ela teria gritando ofensas racistas contra o comerciante.

O incidente aconteceu às 15h de segunda-feira, na esquina das Ruas Doutor Muricy e André de Barros. Odair, acompanhado pela esposa grávida de sete meses (ela é branca), aguardava para atravessar a André de Barros. Odair e a esposa – ambos já fora do meio-fio – afastaram-se para dar passagem ao Celta. ?Levantei a mão, fiz sinal para o carro avançar e, quanto passou na minha frente, bati por acidente no capô. Acho que ela ouviu o barulho que minha aliança fez ao tocar na lata, e desceu para fazer o escândalo?, comentou o comerciante.

Odair tentou amenizar, dizendo que se a mulher pedisse desculpas, ficaria o ?dito pelo não dito?. Mas ela se recusou, de acordo com a vítima, assegurando que tinha ?muito orgulho de ser branca e que não devia desculpas a ninguém?.

Odair registrou a queixa na delegacia (BO de número 2007-831080). ?Não quero indenização nem tenho qualquer motivação política para a atitude que tomei. Só quero que as pessoas saibam que todos somos iguais perante a lei e que não me calei diante das ofensas?, explicou Odair.

A versão da acusada

A instrutora de auto-escola Ivete Novakoski, 43 anos, que está sendo acusada de racismo, informou, ontem, que não ofendeu Odair pelo fato de ser negro. ?Ele estava atravessando a rua fora da faixa de pedestres, com o sinal fechado e com uma gestante. Ficou dançando para frente e para trás no meio da rua. Então parei o carro e esperei. Quando passei, ele bateu no capô e disse: ?Além de mulher, tem que ser loira e burra. Lugar de mulher é no tanque?. Eu apenas respondi: ?Vá pastar?. Ivete disse ainda que arrancou o carro e foi para o estacionamento. ?Ele foi atrás e começou toda essa história. Se ele se sentiu ofendido, eu também me senti e também vou registrar uma queixa contra ele?, afirmou a instrutora, que há 15 anos trabalha na auto-escola e diz que já teve namorados de várias etnias e não discrimina pessoas pela cor da pele.

Consciência Negra

Por coincidência, ontem foi celebrado o Dia da Consciência Negra, que é dedicado, no Brasil, à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A data diz respeito à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. Entidades – como o Movimento Negro (tido como o maior do País) – organizaram palestras e eventos educativos buscando evitar o racismo, o auto preconceito e a inferiorização do negro perante a sociedade. ?Nós não somos melhores ou piores do que os outros por causa da cor de nossa pele. Nós somos iguais e foi isso que sempre ensinei aos meus filhos?, afirmou o comerciante Odair Fernandes da Silva.