Na segunda reportagem da série sobre as orgias de Campo Largo, o mapa da cidade mostra alguns pontos visitados pelo Paraná-Online. Esses locais foram indicados por pessoas que prestaram depoimento no inquérito policial que apura as festas envolvendo exploração sexual de menores de idade em chácaras no município.

Entre as pessoas que concederam entrevistas, estão duas garotas que afirmam ter participado dessas festas, que aconteciam toda quinta-feira. Elas completaram 18 anos recentemente e não estão sob proteção do Conselho Tutelar de Campo Largo. Mesmo assim, pediram para não ter os nomes divulgados. Uma delas casou-se recentemente.

Outras informações foram repassadas por integrantes do movimento civil Piedade Campo Largo e também por moradores e comerciantes da cidade, que igualmente com medo de represálias pedem anonimato. O que impressiona em todos os relatos é a repetição de determinados nomes e locais. O Paraná-Online não teve acesso ao inquérito, que corre em segredo de Justiça.

Manifestação

Hoje, a partir das 9h, o movimento civil Piedade Campo Largo fará passeata no centro da cidade, pedindo justiça e o fim da impunidade de quadrilhas que estariam dominando determinadas atividades, como o tráfico de drogas. Líderes religiosos e políticos, comerciantes, empresários e autônomos integram o movimento.

Uma das denúncias graves que o movimento fará hoje é de que duas menores de idade, que participaram das festas, fugiram dos abrigos do Conselho Tutelar. Elas estariam andando livremente pela cidade sem proteção judicial.

Ontem, o Tribunal de Justiça confirmou que o juiz André Taques de Macedo, da comarca de Campo Largo, está afastado do cargo por mais 90 dias. A decisão do Órgão Especial do TJ foi publicada no Diário da Justiça. Macedo tinha pedido férias desde que seu nome foi envolvido no caso das orgias, após uma entrevista à TV Bandeirantes em que uma das garotas afirmava que o “dr. André” freqüentava as festas nas chácaras. As férias venceram no início desta semana, mas em seguida o TJ decidiu pelo afastamento temporário do magistrado.

Dono de chácara e bar se recusa a dar entrevista

Célio Túlio, dono da chácara na região do Bugre onde as festas teriam começado há cerca de dois anos, não quis dar entrevista. Quando esteve no Fórum de Campo Largo para ser ouvido pelo desembargador Leonardo Lustosa, há duas semanas, limitou-se a dizer que imaginava ter sido chamado para depor porque, segundo ele, “essas meninas freqüentavam o bar”.

Túlio é também proprietário do Art Bar – local de bom nível, que funciona somente às quintas-feiras – e do Armazém de Eventos, anexo, com entrada independente pelos fundos e que é aberto para festas aos sábados.

Roupas

A garota maior de idade afirmou que o Armazém de Eventos era usado como local de encontro após as festas na chácara da Vila Bancária. Ali elas trocavam de roupa antes de voltar para casa – a maioria delas é de origem humilde e vive na periferia.

Um dos integrantes do movimento Piedade Campo Largo confirma que o Armazém servia para que as meninas se livrassem do “visual de festa” – roupas decotadas, muitas vezes molhadas pelos banhos de piscina. Outra fonte, um advogado, contou que o Art Bar é freqüentado pela elite de Campo Largo e também por garotas de programa.

Outra informação que corre na cidade é que as festas tiveram que ser suspensas porque a mulher de Túlio teria descoberto a presença de prostitutas contratadas, “profissionais” vindas de cidades como São Paulo e Londrina. A partir daí, o grupo passou a promover as festas em outros locais. Com o tempo, no lugar de profissionais contratadas, passaram a levar meninas pobres de Campo Largo, que iam aos jantares para comer bem e beber de graça.

Mara e Erivan

Na casa da cozinheira Mara e do eletricista Erivan, no bairro da Rondinha, a equipe do Paraná-Online foi recebida gentilmente. Mara não estava em casa, mas Erivan contou sua versão da história. Segundo ele, uma vizinha, incomodada com o barulho do videokê da casa, teria aproveitado a onda de denúncias para acusá-los de promover festas com menores. “No momento certo, vou processar quem está me difamando”, garantiu o eletricista. “A gente fazia festa aqui no quintal no verão do ano passado, logo que comprei a casa. Quem gosta de cantar é minha filha de 9 anos, que convidava as amiguinhas e primas.”

O marido de Mara também contou que uma das meninas que foi para o abrigo do Conselho Tutelar esteve hospedada na casa dele antes de ser recolhida. “É uma garota que tinha problemas com a família e a gente estava ajudando”, resumiu.

Erivan confirmou também ter ido a jantares na chácara da Vila Bancária, às quintas-feiras. Segundo ele, mais de trinta pessoas se reuniam para comer e beber em confraternizações sociais. “Eram jantares normais. Se acontecia alguma coisa diferente, eu não sei. Vi o juiz lá, umas duas vezes. Ele chegou com a namorada, comeu e foi embora cedo nessas vezes”, relatou.

Depoimento

Poucos dias depois de conceder entrevista ao Paraná-Online, Erivan e Mara foram chamados ao Fórum de Campo Largo, onde foram ouvidos pelo desembargador Leonardo Lustosa, Eles não quiseram falar depois do depoimento. Erivan esteve no Fórum nos dois dias de depoimentos. Nas duas vezes, estava acompanhado de outros suspeitos de envolvimento no caso. No primeiro dia, Erivan conversava com empresário Célio Túlio, de quem o eletricista afirma ser amigo. No dia seguinte, Erivan saiu do Fórum acompanhado do dono de uma oficina de bombas para caminhão, que é citado no inquérito, de acordo com as garotas, como um dos organizadores das festas.