Quatro testemunhas de defesa e duas de acusação foram ouvidas ontem, no primeiro dia do julgamento de Beatriz Cordeiro Abagge, 47 anos, acusada do sequestro e morte do garoto Evandro Ramos Caetano, crime ocorrido em 7 de abril de 1992, em Guaratuba.

Com plenário lotado, principalmente de estudantes de Direito, as declarações do delegado da Polícia Civil Luiz Carlos de Oliveira, última testemunha de defesa ouvida, caíram como uma bomba.

Ele foi categórico ao afirmar que o Ministério Público e o Judiciário foram induzidos a erro “até hoje”, manipulados por informações falsas, para incriminar não só Beatriz, mas também os seis outros acusados pelo mesmo crime.

Apontou o engenheiro civil Diógenes Ramos Caetano (parente do menino morto) como um dos responsáveis pela trama, dizendo que ele contou com a ajuda da Polícia Militar e de “outras pessoas” para dar sustentação à fraude.

Mais uma vez contestou o exame de DNA que identificou o corpo como de Evandro, dizendo que não há indicações seguras de como o material usado no exame foi colhido e entregue ao laboratório.

Denúncias

O juiz Daniel Ribeiro Surdi de Avelar, titular do 2.º Tribunal do Júri de Curitiba, apontou as revelações como “muito graves” e pediu ao delegado que, em declarações à parte, indique os nomes dos supostos autores da trama.

Oliveira avisou que poderia citar nomes do Judiciário e do Ministério Público, mas não da Polícia Militar. A platéia aplaudiu-o efusivamente, sendo repreendida pelo juiz, para que não se manifestasse daquela forma.

A mãe de Beatriz, Celina Abagge, que só não estava sendo julgada por causa da idade, chorou bastante. Ela, as filhas e os netos estavam na platéia. Sheila Abagge, irmã de Beatriz, emocionada, comemorou: “Até que enfim alguém pode falar a verdade neste processo”.

Rapidez

Ao contrário do primeiro julgamento a que mãe e filha foram submetidas, no Fórum de São José dos Pinhais, em 1998, que durou 34 dias e posteriormente foi anulado, os trabalhos de ontem aconteceram com rapidez.

Às 17h40, todas as testemunhas já tinham sido ouvidas. Pela manhã, compareceram em plenário o perito aposentado Arthur Drischel, que fez o levantamento do local em que o corpo foi encontrado, e a odontolegista Beatriz Helena Sotille França, responsável pelo exame de arcada dentária do corpo.

À tarde, foram ouvidos o promotor de Justiça aposentado Carlos Roberto Dalcol; a ex-funcionária da Prefeitura de Guaratuba Maria José de Conceição, e os delegados Leila Bertolini, Adauto Abreu de Oliveira e Luiz Carlos de Oliveira. O perito e o promotor aposentados e a odontolegista foram convocados pelo Ministério Público. Os demais foram testemunhas da defesa.

Leitura

Depois dos depoimentos, o juiz determinou a leitura de algumas partes do processo, escolhidas por promotores e advogados (o que consistiu especialmente na leitura de laudos) e por fim ouviu Beatriz Abagge a portas fechadas, já depois das 20h.

Por se tratar de depoimento pessoal, em que ela iria narrar torturas que disse ter sofrido, a defesa pediu privacidade. O plenário foi esvaziado, ficando apenas as partes e os jurados. Terminado o depoimento, os trabalhos foram encerrados.

Hoje, às 8h30, a sessão recomeça para os debates entre os promotores Lúcia Inez Giacomitti Andrich e Paulo Sérgio Markowicz Lima e a equipe de defensores, comandada pelo advogado Adel El Tasse.

Esta etapa pode ter a duração de até sete horas, o que leva a crer que, no meio da tarde, o conselho de sentença se reunirá em sala secreta para dar o veredicto. Caso seja inocentada, Beatriz volta para casa livre. Se for condenada, o juiz aplicará a pena de acordo com os quesitos votados pelos jurados.

Perito contesta tamanho do corpo necropsiado

Das testemunhas de acusação, o depoimento m,ais contundente foi de Beatriz Sotille França. Ela afirmou ter examinado a arcada dentária do menino em companhia da odontopediatra que atuava na época em Guaratuba (única a atender Evandro), e que não tinha dúvidas que o corpo era mesmo do menino.

Disse também que, ao longo do processo, chegou a temer pela sua integridade física “porque muita gente estava morrendo”, porém não deu nem lhe foram pedidas maiores explicações sobre seus temores.

O perito Arthur Drischel, embora convocado pela acusação, serviu à defesa. Ele afirmou que o tamanho do corpo encontrado no mato, cinco dias depois do sumiço de Evandro, era muito grande para uma criança de seis anos, e que alguns dos cortes feitos no cadáver (que estava sem as mãos, os dedos dos pés, o couro cabeludo e os olhos, além de todos os órgãos internos) tinham sido feitos com instrumento cirúrgico e não com serra.

Disse ainda que o corpo apresentava “queimaduras provocadas por gelo”, indicando que tinha ficado em algum lugar refrigerado antes de ser abandonado no matagal onde foi encontrado.

Já o depoimento do promotor aposentado pouco acrescentou e foi contraditório. A defesa chegou a pedir que ele ficasse à disposição do Tribunal para eventual confronto e até indiciamento por falso testemunho. Mas Dalcol se comprometeu a comparecer caso venha a ser chamado e foi liberado pelo juiz.

Investigação atropelada

Arquivo
Adauto: suspeita de tortura.

As quatro testemunhas de defesa foram seguras em seus depoimentos e apresentaram álibis para a acusada. Maria José contou que no dia do sumiço de Evandro (6 de abril de 1992) esteve na casa de Beatriz pela manhã, entre 10h30 e 11h, e a encontrou acordando.

A acusação diz que ela estaria sequestrando o menino neste horário, em companhia da mãe. Quando à Celina, a testemunha disse que ela tinha viajado para Curitiba, em companhia do marido, então prefeito Aldo Abagge, como fazia em todas as segundas-feiras.

A delegada aposentada Leila Bertolini, na época do Grupo Tigre (da elite da Polícia Civil, criado para atuar em casos de sequestro), comandou as diligências no litoral com sua equipe e sob a orientação de Adauto Abreu de Oliveira (hoje também aposentado).

Ela afirmou que Diógenes Caetano tentou induzir as diligências e antes mesmo do cadáver ser encontrado ele já tratava o caso como homicídio, o que causou grande estranheza.

O mesmo Diógenes, mais tarde, denunciou a equipe ao Ministério Público, dizendo que os policiais estavam recebendo dinheiro para não prender Celina e Beatriz. “Ele nos desmoralizou e conseguiu nosso afastamento do caso, para a entrada do Grupo Águia, da Polícia Militar, que fez as prisões dos acusados”, afirmou.

Adauto Oliveira confirmou as declarações de Leila, disse que não houve investigação do caso pelo Grupo Águia (então comandado pelo capitão Waldir Copetti Neves, hoje tenente-coronel condenado pela Justiça a 18 anos de prisão por vários delitos).

“O que houve foi prisão e confissão. Confissão de um crime bárbaro desprovido de qualquer prova. Isso sempre nos leva a suspeitar que houve tortura”, afirmou. Disse também que Neves “tinha fama de ser um policial violento e arbitrário”. Com relação às investigações feitas pelo Tigre, afirmou que não chegaram a nenhuma conclusão, mas que Diógenes sempre figurou como suspeito.

Acusações de delegado chegam ao governo da época

Mara Cornelsen
Celina chorou ao ouvir relato de Luís Carlos.

O delegado Luís Carlos de Oliveira, atual titular da Divisão de Crimes contra o Patrimônio, investigou na época o desaparecimento de outro garoto, Leandro Bossi, 7 anos, ocorrido em fevereiro daq,uele mesmo ano.

Com o aparecimento do corpo de Evandro e por ter apurado que o cadáver parecia ser maior do que o do menino de 6 anos, aventou a hipótese de ser de Leandro, e assim as investigações se cruzaram.

Perguntado por que Diógenes Caetano não foi investigado na época, já que parecia suspeito, ele declarou que com o afastamento da Polícia Civil do caso e a atuação intempestiva da Polícia Militar, o então secretário de Segurança Pública, José Moacir Favetti, informou ao então governador do Estado, Roberto Requião, de que os autores do crime estavam presos e Requião fez imediatamente o anúncio à imprensa.

“Sendo ou não sendo, a partir de então os sete presos deveriam ser culpados, caso contrário desmoralizaria toda a cúpula do Governo”. Desta forma, segundo ele, Diógenes sofreu uma espécie de “blindagem” e tornou-se “inalcançável”. “Ele vivia cercado por quatro seguranças armados, todos do serviço reservado da PM. Não dava sequer para interrogá-lo”, justificou.

O delegado ainda apresentou em plenário a declaração tomada na Delegacia Antitóxicos, quatro anos após o crime, de Euclídio Soares dos Reis, morador em Guaratuba, e que havia sido preso com cocaína. Euclídio revelou que na noite de 9 de abril de 1992, dois dias depois do sumiço de Evandro, ele amarrava um boi em frente à sua casa, quando viu um Fiat Panorama verde, ocupado por Diógenes e outro homem conhecido como Paulino Mangueira, entrar numa trilha até um matagal, onde permaneceram por mais de uma hora, até sair com o veículo com faróis apagados. Curioso, foi ver o que tinha no mato e encontrou o corpo de uma criança, embrulhado em jornais. Voltou para casa assustado e revelou o que viu para sua mulher, Cecília Guimarães, o que tinha visto.

No dia seguinte, a mulher viajou para Araucária e ele foi tirar satisfações com Diógenes. Este então o teria levado para morar na casa dele, com todas as despesas pagas, e com um emprego de “segurança” para ficar com o “bico fechado”.Esta declaração de Euclídio consta no processo (que tem 70 mil páginas e mais de 50 volumes, além dos apensos), porém nunca foi levada em consideração.