Computadores e documentos
foram apreendidos.

A ilusão da compra da casa própria ou do tão sonhado veículo fez com que centenas de pessoas caíssem num grande golpe de estelionato, que pode ter rendido aos criminosos a quantia aproximada de R$ 1,5 milhão nos últimos meses. De acordo com o delegado Sérgio Sirino, do Núcleo de Repressão a Crimes Econômicos (Nurce), não há uma estimativa do número de pessoas lesadas, pois o golpe era aplicado em diversas cidades do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais. Entretanto, somente no Paraná, cerca de 400 vítimas foram enganadas.

De acordo com o policial, as investigações iniciaram há 60 dias, mas ganharam mais consistência a partir da prisão de duas pessoas em Jaraguá do Sul (SC). Depois disso, foi organizada uma megaoperação na qual os investigadores deveriam, simultaneamente, realizar buscas, apreensões e prisões em cinco cidades de três estados. Essa operação aconteceu na manhã de ontem e resultou na prisão de duas pessoas em Curitiba.

Golpe

Aproveitando o baixo nível de instrução das vítimas, estelionatários comandavam um grupo de falsos vendedores de consórcios para a aquisição de imóveis, terrenos e carros em tempo reduzido e com facilidades de pagamento. Os golpistas realizavam uma grande divulgação de venda em diversas mídias, principalmente em rádios que atingem grande parte da população de baixa renda. Desta maneira, os interessados na compra entravam em contato com a empresa e marcavam encontros para o fechamento do contrato e aquisição do bem. Em Curitiba, a empresa tinha o nome fantasia de Fórmula Um – Empreendimentos Imobiliários e sua sede ficava em um sobrado, na Rua Isaías Regis de Miranda, Vila Hauer.

Nesta sede, inúmeros contratos de venda de imóveis foram fechados, com valores que oscilavam entre R$ 500,00 e R$ 900,00 de entrada. Os contratos assinados prometiam a entrega do bem adquirido em, no máximo, 120 dias e o parcelamento do financiamento em 120 vezes (10 anos), com prestações de valores reduzidos. Depois do contrato assinado, os vendedores, que se apresentavam sempre com nomes falsos, se alternavam no atendimento aos clientes na empresa, o que dificultava o reconhecimento deles pelas vítimas. Algumas pessoas continuaram pagando mensalidades até suspeitarem que haviam sido lesadas.

Prisão

Os mentores do golpe são Luiz Franschesquetto e Albino Franschesquetto, que estão com prisões decretadas e sendo procurados pela polícia. Além deles, outras cinco pessoas também são procuradas. Na operação desencadeada às 6h de ontem, em Curitiba, São José dos Pinhais, Cascavel, Porto Alegre e Belo Horizonte, foram presos na capital paranaense Valderi Alves, 24 anos, supervisor da empresa, no apartamento dele (Hauer) e a secretária Suelen Gislayne Simões, 21, quando saía da faculdade onde estuda. Para prender o supervisor foi necessário que policiais arrombassem a porta do apartamento.

De posse dos mandados de busca e apreensão, os investigadores foram até a casa de Maurício Paulino do Nascimento, onde recolheram documentos e disquetes que podem servir como prova da ligação dele com o esquema fraudulento. Maurício não estava em casa. Outro gerente da Fórmula Um, Márcio Luiz Fopa, foi procurado na casa dele, mas também não foi encontrado. As residências dos dois mentores do golpe também foram “estouradas” em Curitiba e Porto Alegre, porém Luiz e Albino não foram localizados.

Documentos

O delegado Sirino informou que foram apreendidos diversos documentos, disquetes, e três computadores que serão enviados para análise. Dentre os documentos recolhidos há provas da ligação dos golpes aplicados pela Fórmula Um e pela empresa Sulcar Veículos, no Rio Grande do Sul, que foi fechada no ano passado. Em Belo Horizonte, a operação do Nurce fechou a sede local da empresa, que era a única ainda em funcionamento no País. Nas demais cidades inspecionadas foram apreendidos documentos que serão analisados.

O delegado ressaltou que o primordial agora é encontrar e prender os “cabeças” do golpe, para que seja esclarecida a amplitude da trama. A razão social da empresa estava registrada na Junta Comercial como LPR Empreendimentos. Os envolvidos no crime serão enquadrados por formaçào de quadrilha, estelionato, uso de documento falso, falsidade ideológica, crime contra economia popular e crime contra o consumidor.

Anúncios e brindes seduziam as vítimas

Uma das vítimas do golpe conversou com a reportagem da Tribuna. A vendedora autônoma – que preferiu não se identificar – contou que ouviu o anúncio numa rádio e entrou em contato com o número de telefone divulgado. “Falaram que eu era a 3.ª pessoa a ligar e que por isso havia ganho uma cozinha como brinde. Quando recebesse a casa, a cozinha já estaria lá”, contou.

A vítima recebeu em sua casa alugada, no bairro Rebouças, no dia 2 de julho, um vendedor da Fórmula Um. Lá foram explicadas as condições do contrato e como seria feita a entrega da casa. “Assinei contrato dando R$ 600,00 de entrada e paguei R$ 127,00 depois de alguns dias”, explicou. Depois do pagamento inicial e do contrato assinado, o vendedor avisou que em 25 dias os compradores receberiam o terreno com a casa, num bairro próximo ao centro de Curitiba. O valor total da financiamento do imóvel seria de R$ 23 mil dividido em 120 prestações de R$ 227,08. Depois de 10 dias, os clientes poderiam escolher o modelo da casa que iriam morar.

Delcon

Passado esse tempo, o marido da vendedora entrou em contato com a empresa, que começou a enrolar, transferindo ligações ou simplesmente informando que o contrato previa a entrega da casa em 120 dias. Quinze dias depois desse contato, com as negativas recebidas via telefone, o casal resolveu ir até o endereço da Fórmula Um. “Chegamos no local e a casa estava fechada e com uma placa da polícia, para que as pessoas procurassem a Delegacia do Consumidor (Delcon). Percebemos, então, que havíamos sido enganados”, contou.

A vítima espera ainda receber seu dinheiro de volta. “O dinheiro foi fruto de muito trabalho, de muita economia”, finalizou.