De cada 10 ligações recebidas pelo telefone de emergência da Polícia Militar (190), três são trotes. Em épocas de calor, em que há mais pessoas e dinheiro circulando nas ruas, e os chamados aumentam, os trotes podem chegar a 3.500 num só dia. A realidade é a mesma de pouco mais de um ano atrás, quando o Paraná Online mostrou o problema.

Para o major Olavo Vianei, chefe da central de emergências, o problema é de educação. Ele explica que não são somente as crianças que fazem as ligações indevidas. Adultos, que deveriam saber que tiram o tempo de quem realmente precisa de ajuda, também incomodam.

Surtados

O soldado Goulart, que trabalha como atendente do 190, acredita que algumas podem ter algum transtorno psicológico. Um dos exemplos é um idoso, que sempre liga à PM, dizendo que o “pessoal da segunda guerra” está lá e que os soviéticos vão invadir. Outro caso extremo, contou o major, envolveu a Justiça. A esposa de um funcionário público, depois de o casal se separar, passou a telefonar constantemente à PM, dizendo que sua casa estava sendo invadida e seu marido assaltado.

Por várias vezes, a PM mandou viaturas ao local e não constatava nada. O ex-marido se viu obrigado a entrar com medida judicial, interditando a mulher e pedindo que a PM não fosse mais ao local, porque ela estava com distúrbios psicológicos graves. Uma mulher do Jardim das Américas, telefona e diz que criancinhas estão sendo mortas numa casa do bairro. O caso nunca foi constatado.

Sem contar as pessoas que ligam apenas para pedir informações. Querem saber nomes de ruas, como faz para chegar de ônibus em determinado local e etc. Há ainda os “carentes” e depressivos, que só querem conversar. A todos eles os policiais dão rápida orientação e desligam.

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Pode dar multa

A pessoa que faz ligações indevidas aos telefones de emergência pode ser punida de três formas. A lei estadual 17.107/12 prevê multa de R$ 135,78 ao dono da linha de onde partiu a ligação. Esta é apenas penalidade administrativa.

Pelo Código Penal, dois artigos classificam a atitude como crime. O artigo 266, que fala sobre interrupção ou perturbação do serviço telefônico, prevê um a três anos de prisão. O artigo 340, que trata sobre falsa comunicação de crime, dá de três meses a dois anos de cadeia.

Indenização

Se o infrator for acionado pelo Código Civil, ainda será obrigado a reparar ou indenizar o Estado pelos custos gerados pela ligação falsa.

“Te ligo na saída”

São muitas as ligações indevidas recebidas de crianças. O Serviço Móvel de Atendimento de Urgência (Samu), por exemplo, tem pico de ligações vindas dos pequenos nos horários de saída escolar (das 11h30 às 12h e das 17h30 às 18h30). Sem contar uma mulher, moradora do Boqueirão, que diariamente liga para dizer que está doente ou alguém com ela está tendo algum problema.

Precaução

O major Vianei conta que o Batalhão de Patrulha Escolar (BPEC) e o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), da Polícia Militar, desenvolvem a consciência antitrotes nos estudantes.
É um trabalho que ainda pode demorar algum tempo para mostrar resultados.

“Brincadeira” vai pr,a delegacia

Sempre que a Polícia Militar consegue identificar o dono da linha de onde partiram trotes, manda ofício ao 2.º Distrito Policial (Rebouças) para iniciar investigações. Giovani Setti, superintendente do 2.º DP, conta que, desde janeiro, cerca de cinco procedimentos foram encaminhados à Justiça. A pessoa que passou o trote (ou o dono da linha, quando o autor do trote não é identificado) podem responder a inquérito ou termo circunstanciado.

Transtornos

Na maioria dos casos encaminhados estão pessoas com algum tipo de transtorno mental e que fizeram mais de 20, 30 ou 50 ligações à PM, em poucas semanas. “Há também casos de investigação criminal, de pessoas que passaram trotes intencionais. Ainda não tenho nenhum inquérito desses no distrito, mas são casos em outras delegacias, que investigam, por exemplo, quadrilhas de arrombamento de caixas eletrônicos. Em cidades de pouco efetivo policial, ligam à PM informando um crime bem longe, para poderem agir com calma em outro canto da cidade”, lamentou Giovani.

Cidade grande

Os trotes são um mal dos grandes centros urbanos, onde as pessoas são “anônimas” e, às vezes, é difícil localizar quem ligou. A média, de três ou quatro trotes entre 10 ligações, é praticamente a mesma em todas as grandes metrópoles. “Em cidades menores, como Guaraqueçaba, por exemplo, eles praticamente não existem, porque as pessoas se conhecem melhor e desestimulam esse crime”, analisou o major Vianei (foto).

O oficial pede que as pessoas percebam a relevância dos serviços de emergência, que salvam vidas e prendem bandidos “O serviço tem que estar disponível na hora da necessidade”, apelou o policial.

É o seguinte!

Não dá pra acreditar que ainda há gente passando trote, ocupando linhas de serviço e emergências, mas há. Muitas vezes, uma ligação “de brincadeirinha” tira uma ambulância do seu serviço. Você vai ver que, fora os problemas de doenças, tudo é questão de educação.