Fábio Alexandre

A partir de 8 de outubro, usuários e dependentes de drogas passarão a receber tratamento diferenciado ao dispensado aos traficantes. A dependência química passa a ser tratada como doença e não como crime ou contravenção penal. Apesar disso, pela nova Lei de Tóxicos, que leva o número 11.343/2006, o usuário estará sujeito a medidas sócioeducativas e a tratamento. Os estados e municípios deverão se adaptar à nova realidade, remanejando orçamentos para estes tratamentos e, provavelmente, criando locais adequados para que o dependente possa ser tratado.

No Paraná já existe um lugar assim. O Centro Antitóxicos de Prevenção e Educação (Cape) foi criado em 1994 pela Secretaria de Segurança Pública e integrava a estrutura da Delegacia Antitóxicos. A finalidade é desenvolver ações no âmbito do atendimento, orientação, encaminhamento e acompanhamento dos dependentes químicos. ?Sempre nos preocupamos com o lado social do preso e da sua família. Não fazemos isto só com o dependente, mas também com o traficante, já que a maior parte deles também é viciada?, explicou o delegado Osmar Dechiche, chefe da Divisão de Narcóticos (Dinarc). Segundo ele, quando ocorre uma prisão, a família do preso normalmente entra em desespero e é encaminhada para o Cape. ?Fazemos a parte social sem deixar de lado a repressão. Essa nova lei sobre tóxicos veio ao encontro do que a polícia paranaense já vinha fazendo?, comentou o policial.

Estrutura

Para procurar ajuda não é preciso que o viciado seja flagrado pelos policiais. ?Ele e a família podem nos procurar. Não haverá repressões neste caso. Vamos tentar ajudá-los?, salientou o delegado. Hoje o Cape conta com um psicólogo, quatro estagiários de psicologia e dois de serviço social.

A coordenadora do Cape, Cristina Venâncio, disse que a função do órgão é apoiar a família e encaminhar o dependente para a desintoxicação, a ser feita em clínicas de recuperação. No ano passado, 856 dependentes químicos foram atendidos de janeiro a agosto. No mesmo período deste ano foram 268. ?Estamos trabalhando para melhorar ainda mais o serviço. Muita gente ainda não conhece o nosso trabalho?, explica Cristina. Além de ajudar os viciados e suas famílias, o Cape também ministra palestras para empresas, escolas e para a comunidade em geral.

Serviço: O Centro Antitóxicos de Prevenção e Educação está localizado na Rua José Loureiro, 376, 1.º andar, centro de Curitiba. Maiores informações: (41)3232-2734.

Força de vontade é fundamental

Evandro Monteiro

O primeiro passo para deixar de ser um viciado, seja de droga ilícita ou lícita, é a vontade de abandonar o vício. Sem isso não há tratamento eficiente. ?A melhor maneira é conscientizar, principalmente os jovens. Se não tem procura, não tem comércio?, salienta o delegado Osmar Dechiche, que antes de assumir a chefia da Divisão de Narcóticos, já trabalhava com a prevenção de drogas distribuindo informativos e dando palestras em escolas.

Dechiche revela que, independente da nova lei antitóxicos, seu trabalho sempre se voltou no sentido de ?repreender o tráfico com ?mão dura? e encarar a situação da dependência como um problema de saúde pública?. Para diminuir o número de adolescentes que começam a usar drogas e incentivar os que usam a se tratarem, a Dinarc (Divisão de Narcóticos) já está programando uma campanha de prevenção, em nível estadual, nas escolas. ?Acreditamos na recuperação?, frisou o delegado.

Falta esperança

Segundo Dechiche, há um problema de ?empurra? quando o assunto é droga. ?Quando a família percebe que há um viciado entre seus membros, joga para a escola tentar resolver, e esta, por sua vez, joga para a polícia.? Outro problema ressaltado pelo delegado é que hoje estamos na segunda geração de criminosos. ?Aquele crime que era praticado para matar a fome, já é raro. Hoje se comete pequenos delitos para sustentar o vício. Antigamente o preso dizia que seu pai era agricultor, hoje conta que ele está preso.?

A Polícia Militar também tem desencadeado um importante trabalho preventivo, junto a crianças da rede pública de ensino fundamental, atingindo alunos de 9 a 12 anos. Trata-se do Proerd – Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência. Policiais fardados e especializados no assunto fazem palestras em todo o Estado, orientando as crianças para dizer ?não? ao traficante e evitarem a violência. O trabalho dura seis meses e cada aluno do Proerd participa de formatura, transformando-se num disseminador destas idéias. Mais de 300 mil crianças já passaram por ele. (VB)

Escravidão assassina

Fábio Alexandre

?A droga é muito boa quando se está usando?.

A frase é de um ex-viciado em crack, que está tentando se libertar da dependência química. O vício para A.S., 26 anos, começou com o cigarro, aos 15. Aos 18, fumou maconha pela primeira vez e, aos 20, começou a fumar crack. Depois dessa trajetória, A.S. está há dois anos tentando se libertar das drogas. Para isto, procurou tratamento e se distanciou dos amigos.

Fumante, ele conta que teve o primeiro contato com drogas através dos amigos. ?Eu sempre os via usando, mas só com 18 anos resolvi experimentar.

Na época eu trabalhava e tinha dinheiro para sustentar o vício. Só que chega uma hora em que você amanhece usando droga e sua responsabilidade acaba. Perdi muitos empregos por causa disso.? O problema se agravou quando começou a usar crack. ?É muito rápido. Você começa com uma pedra, mas depois uma não é suficiente. Você quer mais. Se tiver R$ 10,00 ou R$ 1.000,00 consome tudo em pedra.

A sensação é de sempre querer mais, independente do que você tem que fazer para conseguir isso?, explicou.

Sem limites

Para sustentar o vício, o usuário não tem limites.

?A gente perde totalmente a responsabilidade e a noção do perigo. Eu mesmo cheguei a entrar na favela de madrugada para comprar crack. Pode ser a hora e a distância que for.

O vício fala mais forte e a gente vai?.

Ele disse que quando o dinheiro acaba é preciso arrumar mais, de qualquer forma. ?Alguns furtam, roubam. Eu, como nunca gostei de tirar o que era dos outros, parti para o tráfico?, lembra. ?Eu pegava a droga de um cara grande e depois vendia a quantidade necessária para pagá-lo.

O que sobrava eu consumia. Não importava o quanto era?, contou.

Corrupção

A.S. disse que nunca chegou a ser preso, porque pagava ?pau? para policiais militares e civis.

?O traficante – de quem eu pegava a droga – dava o dinheiro para entregar para os policiais para que a gente pudesse trabalhar melhor, com segurança. A propina era de R$ 1 mil, R$ 2 mil?, denuncia. Apesar disso, o jovem contou que chegou a ser flagrado pela polícia uma única vez. ?Senti medo. Me colocaram no camburão. Então liguei para o policial que eu pagava e ele mandou me liberar, senão ia sujar. Me soltaram e mandaram que eu sumisse, senão iam me matar?. Antes disso, ele foi flagrado pela Rondas Ostensivas de Natureza Especial (RONE), fumando maconha na rua.

?Não teve acerto. Me levaram para a delegacia. ?Ele salienta que apesar de muitos policiais estarem envolvidos com a corrupção, a maioria trabalha pelo bem da sociedade. ?Os que pegam propina são conhecidos como ?cara preta?, finalizou

Largar o vício é luta diária, revela ex-usuário

Uma visita ao xadrez do 8.º Distrito Policial (Portão), há dois anos, foi o estopim para que A.S. decidisse procurar ajuda para se livrar da dependência química. Ao ver outros viciados encarcerados, ele procurou tratamento em uma clínica de recuperação, onde ficou 22 dias internado. Depois passou a freqüentar o Centro Antitóxicos de Prevenção e Educação (Cape). ?Sempre venho aqui, me faz bem. Converso com psicólogos. Vejo outras pessoas que estão na mesma situação em que eu estava. Isto me ajuda a ficar longe das drogas?, contou o rapaz.

Ele disse que a luta para deixar o vício é constante. ?Tive duas recaídas. É muito ruim. Parece que quando você volta, quer usar toda a droga que deixou de usar naquele período.? Para A.S., ficar longe das drogas ainda é um sacrifício. ?Há 15 dias conheci umas meninas e fui na casa delas. Quando cheguei tinha um cara, que abriu a mão e mostrou um monte de pedras de crack. Comecei a passar mal. Pedi para um amigo me levar embora. Tive vontade de usar, felizmente sai dali.? A força para sair do local, segundo ele, veio quando começou a pensar na família. ?Eu iria prejudicar outras pessoas e principalmente a mim.?

Longe das drogas, A.S. está procurando um emprego para reconstruir sua vida. ?Todo este tempo eu perdi. Agora não tem como recuperar o que já passou, mas tenho como não perder mais tempo?, afirmou.

Famílias insatisfeitas com nova lei

Familiares de dependentes químicos criticaram a nova lei antidrogas que determina que usuário de entorpecentes seja tratado como um doente e não como criminoso, orientando o ?doente? a se submeter a tratamento de saúde. ?Acho errado. Quem faz a lei não tem alguém dentro de casa que tira tudo o que você tem para comprar droga?, disse R.P., mãe de um dependente. ?Deveria ir preso como antigamente. Fez errado tem que pagar. Esta lei não diz que o tratamento é obrigatório, o viciado tem que querer. Eu tenho um dentro da minha casa que não quer?, disse L.S., avó de um usuário. Ela disse que já chamou a polícia várias vezes para prender o neto, que furta tudo que encontra dentro de casa para negociar os objetos e até roupas com traficantes.

Já G.L., 52 anos, que tem um filho de 27 anos usuário de droga, diz que o problema está no cumprimento desta lei. ?Se o tratamento for só para quem quer, não adianta. Quando são detidos dizem que querem se livrar do vício, mas na verdade só não querem ir para a cadeia. Alguém pergunta para o ladrão se ele quer ou não ir preso??, indagou G.L.

Relação de amor e ódio: convivência dramática

Ter um dependente químico na família não é nada fácil. A pensionista L.S., 66 anos, conta que seu neto já furtou desde botijão de gás até coisas mais caras, como televisor. ?Até pacote de leite ele leva?, lamentou. Ela vive o drama de ter um usuário de drogas em casa, há 17 anos, e sem saber o que fazer procurou o Centro Antitóxicos de Prevenção e Educação (Cape). ?Ele mora comigo desde os 9 anos, quando a mãe dele, que é minha filha, foi embora com outro homem. Aos 12 começou a usar drogas. Hoje está com 29 anos e ainda não se livrou do vício. Ele já usou todas as drogas, só não se injetou porque tem medo de agulha?, disse L.S.

A mulher começou a desconfiar que algo estranho estava acontecendo quando o neto começou a chegar com dinheiro em casa e alegar que tinha achado na rua. ?Ninguém acha dinheiro assim com tanta facilidade.? Outro fato que chamou sua atenção foi que o garoto começou a comer e dormir demasiadamente. ?Certa vez arrumou emprego de office-boy e foi demitido porque gastava o dinheiro que era para depositar e pagar contas. Não sei mais o que fazer. Trouxe-o para fazer tratamento, mas não quer. Aí fica difícil.?