O número de cirurgias no Brasil para amputação de perna e pé aumentou 53%, se comparado 2012 com 2021, segundo ano da pandemia de Covid-19. A consequência é o agravamento do diabetes, da insuficiência renal, da hipertensão e da dislipidemia. A diabetes é uma doença silenciosa, que traz complicações a longo prazo.

Levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV) com base em dados do Datasus, do Ministério da Saúde, mostra que em 2012 foram registrados 18.908 procedimentos contra 28.906 em 2021.

Em 2012, houve 1.576 amputações mensais e 51,80 diárias, em média. No ano passado, a média mensal foi de 2.409 e a diária, 79,19 —a cada hora, três brasileiros precisaram amputar a perna ou o pé.

Para o cirurgião vascular Julio Peclat, presidente da entidade, nos últimos dois anos, com medo da infecção pelo coronavírus, as pessoas deixaram de ir ao médico e abandonaram o tratamento de doenças crônicas.

A consequência é o agravamento do diabetes, da insuficiência renal, da hipertensão e da dislipidemia —alteração nos níveis de colesterol e triglicérides.

As complicações da Covid-19, que agride os vasos e leva à trombose, e o tabagismo também são apontados como causas desse aumento.

“Podemos interpretar esses dados no sentido de que uma das principais causas tenha sido o diabetes descompensado. Vimos que no período da pandemia houve uma descontinuidade no tratamento das doenças crônicas, entre as quais o diabetes. Então, os pacientes ficam mais vulneráveis a pequenas lesões nos pés, e a imunidade, mais debilitada”, afirma o especialista.

“No início da pandemia, conhecíamos muito pouco da Covid e a ordem era fique em casa. Nesse período, em muitas doenças crônicas, os pacientes deixaram de ter atendimento e agora estamos pagando um preço muito alto”, diz Peclat.

A aposentada Marlene Nunes Lamônica, 66, moradora em Magé, na região metropolitana do Rio de Janeiro, não descuidou da saúde durante a pandemia. Diabética, seguiu as orientações de proteção contra o coronavírus e compareceu às consultas para controle da doença.

Mesmo com todos os cuidados, um ferimento levou à amputação do dedão do pé direito. “Fiquei um dia inteiro com uma sandália apertada e ela agravou um machucado que já tinha em cima do pé. Infeccionou. A infecção foi para o osso e deu osteomielite”, conta.

O médico a orientou a realizar a amputação o mais rápido possível. A cirurgia ocorreu em 10 de junho deste ano, no Hospital Samcordis, em São Gonçalo.

“Estou me recuperando bem, o ferimento está sequinho, mas sinto uma diferença bem grande. Sinto falta do dedo. É um pedacinho que sai da gente, né? Mas é melhor perder um dedo do que perder a vida”.

O aumento desse tipo de cirurgia pode ser observado ano a ano, entre 2012 e 2021. No período, 238.391 pessoas sofreram a amputação de algum membro inferior —média mensal de 1.987 e diária de 65,3.

Ao acrescentar 2022 (até março), o total de procedimentos chega a 245.811 —média mensal de 2.031 e diária de 66,9.

A tendência é que 2022 continue com índices expressivos, até porque existe uma demanda reprimida. Em 2023, a expectativa é de redução dos números, uma vez que os tratamentos de saúde foram retomados.

As regiões do país com maior percentual de aumento nas cirurgias para amputação de perna ou pé foram o Nordeste (56%) e o Sudeste (55%). Em seguida, aparecem o Centro-Oeste (52%), Norte (47%) e o Sul (43%).

Alguns estados também apresentaram índices altos. É o caso de Alagoas (173%), se comparado o total de 2012 (182 cirurgias) com o de 2021 (497).

No mesmo intervalo, em Roraima houve aumento de 160%; Ceará cresceu 146%; e Rondônia, 116%.

Em contrapartida, no Amapá e no Amazonas é observada a redução de 29% e 25%, respectivamente.

Dois fatores no diabetes aumentam a incidência de amputação.

Um deles é a neuropatia diabética —a oscilação da glicemia provoca perda da sensibilidade nos pés, principalmente na planta dos pés. Com menos sensibilidade e menos dor, são negligenciados pequenos ferimentos.

O outro é a microangiopatia diabética, um acometimento da microcirculação nos pés por conta do diabetes descompensado, segundo o médico.

“Quando o diabetes não é disciplinado, paga-se um preço alto com a mutilação e até mesmo a vida”, conclui o presidente da entidade.

Outro fator preocupante é a subnotificação, ou seja, o indivíduo que tem diabetes e não sabe. No mundo, 1 em cada 5 pessoas desconhece ter a doença.

“A pandemia nos revelou isso. Muitos que chegam ao consultório ou aos serviços de urgência com complicações do diabetes só descobrem que a têm após o atendimento. O Brasil já possui uma legião de amputados, que cresce exponencialmente”, afirma o cirurgião vascular Mateus Borges, diretor de Publicações da SBACV.

CUSTOS

Os cofres públicos das regiões Sudeste e Nordeste foram os mais impactados do país pelas despesas com as cirurgias de amputação.

O Sudeste foi responsável por 103.509 procedimentos, que juntos custaram R$ 302,9 milhões. São Paulo foi a unidade federativa que mas gastou: R$ 150 milhões por 51.101 operações.

O Nordeste pagou R$ 186 milhões por 80.124 cirurgias. Pernambuco teve o maior gasto: R$ 42,3 milhões por 16.314 procedimentos.

“Esse volume de gastos poderia ser evitado se os sistemas de saúde investissem mais em medidas preventivas, sobretudo no acompanhamento de pacientes diabéticos. Esse público carece de atenção permanente e multidisciplinar para que medidas drásticas, como a amputação de membros, não sejam tomadas”, explica Peclat.