Sintomas como dor de cabeça, vômito ou diarreia não definem o diagnóstico da covid-19 de forma geral. Mas, entre crianças, podem ser sinais importantes. Em abril, a Direção-Geral da Saúde de Portugal atualizou as normas para o diagnóstico da infecção pelo novo coronavírus entre crianças, e incluiu esse alerta:

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“Cefaleia [dor de cabeça], odinofagia [dor ao engolir], mialgias [dores], vômitos e diarreia, isoladamente, não definem a doença, podendo ser integrados, conforme avaliação clínica, na suspeita de infecção por SARS-CoV-2. Esta ponderação deve ser considerada particularmente em doentes pediátricos, em que rinorreia [corrimento nasal] e sintomas gastrointestinais têm maior prevalência”, destaca a norma 004/2020, atualizada no dia 19 de abril de 2021.

Dependendo do momento em que os sintomas aparecem, podem indicar um agravamento da doença, segundo explica Victor Horácio Souza Costa Junior, médico infectologista pediatra do hospital Pequeno Príncipe e vice-presidente da Sociedade Paranaense de Pediatria.

“Se tiver um quadro de ausência de febre, com coriza e tosse seca no início, a tendência é evoluir bem. Se teve covid-19 e, duas a seis semanas depois, tiver febre, conjuntivite, rash cutâneo, quadro de diarreia, pode estar evoluindo para uma forma mais grave, que é a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P)“.

Alerta pós-covid-19

A preocupação de pais e pediatras, portanto, não acaba após o período mais agudo da covid-19. Segundo explica a médica pediatra Heloisa Ihle Garcia Giamberardino, as crianças que apresentam esses sintomas nos primeiros 30 dias depois da infecção pelo coronavírus podem estar se encaminhando para um quadro de maior gravidade.

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“Quando temos crianças que já tiveram covid-19 e retornam ao hospital com quadros de vômitos, cefaleia, ou um quadro de hiperglicemia [aumento do açúcar no sangue], ou taquicardia, deve ser chamada atenção para complicação da covid-19”, explica a especialista, que é membro do departamento científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), além de coordenadora do Serviço de Epidemiologia e Imunizações do Hospital Pequeno Príncipe e presidente da Regional Paraná da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e pelo Instituto Adolfo Lutz apresenta ainda outros sintomas que podem indicar a SIM-P: miocardite e colite, que são a inflamação do músculo cardíaco e do cólon intestinal, respectivamente.

Os resultados, publicados na revista EClinicalMedicine, do grupo Lancet, foram obtidos a partir da autópsia de cinco crianças que morreram em decorrência de complicações da covid-19, em São Paulo. As crianças tinham entre sete meses e 15 anos, e eram quatro meninas e um menino, de acordo com informações divulgadas pela Agência Brasil.

Sinais dermatológicos

Sintomas na pele também podem surgir nos pacientes pediátricos. Erupções nas mucosas ou na pele foram identificadas em 42% das crianças avaliadas em um estudo espanhol, publicado no início de abril na revista científica Journal of the American Academy of Dermatology.

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De acordo com os pesquisadores, manifestações cutâneas da covid-19 em crianças e adolescentes têm sido descritas em relatos de casos ou pequenas séries. Porém, um detalhamento mais extenso sobre esses sinais ainda não foi feito, bem como qual seria a implicação no desenrolar da doença.

Por que sintomas diferentes?

Ainda não é claro por que as crianças apresentam menos sintomas, ou diferentes, quando infectadas com o coronavírus, mas a formação do sistema imunológico nessa faixa etária ajuda a explicar.

A principal forma de entrada do Sars-CoV-2 nas células humanas se dá por meio da enzima conversora de angiotensina 2, ou ECA2. Em uma conexão tal qual ‘chave e fechadura’, o vírus usa essa enzima para jogar para dentro da célula as informações que permitirão a sua replicação. Crianças, em geral, têm menor quantidade desses receptores. Sem as enzimas, menores são as chances de o coronavírus entrar nas células e gerar a covid-19.

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“Até o momento, essa tem sido uma das explicações mais plausíveis”, afirma a médica pediatra Heloisa Giamberardino. “Como a criança vai crescendo, ela adquire mais receptores. Tem ainda as questões de predisposição genética, que estão em estudo. Às vezes vemos famílias inteiras doentes e, em outras, na qual apenas uma pessoa se infecta, e nem mesmo desenvolve um quadro tão grave”, destaca.

De acordo com o médico infectologista pediatra Victor Horácio, o sistema imunológico das crianças também é mais imaturo e atingirá a maturidade completa apenas próximo aos 7 anos de idade. “Mas a criança já vai montando a sua proteção a partir do momento que recebe as vacinas. Por isso a importância em manter o calendário vacinal em dia, que nos ajuda a trabalhar na construção do sistema imune”, explica.