Curitiba foi sede do primeiro festival internacional de cinema do Brasil, nos anos 1960, e a atriz Janet Leight, estrela de “Psicose”, veio de Hollywood até aqui para participar da 5.ª edição do evento, que ocorreu no antigo Cine Vitória, em 13 de abril de 1964. Chamado de “Festival Internacional de Cinema Tribunascope de Ouro”, que também ocorria no Cine Ópera, as cinco edições (de 1960 a 1964) foram organizadas pela então recém fundada Tribuna do Paraná e pelo jornalista e colunista do jornal Júlio Kogut Netto. O nome da coluna dele sobre cinema deu nome ao festival.

Não era um evento nos moldes atuais, com exibições de filmes inscritos por modalidade, mas ao estilo premiação do “Oscar”, com júri votando nas melhores produções do mundo inteiro. Os escolhidos ficavam a cargo de uma comissão julgadora formada por membros da Associação Brasileira de Cronistas Cinematográficos (Regional/PR) e a entrega dos prêmios era feita em noite de gala, com o troféu sendo enviado aos ganhadores internacionais pelos representantes comerciais das produtoras de filmes, que viajavam para fora do país para comprar as películas que seriam exibidas no Brasil. Para se ter uma ideia, um festival semelhante só veio a ocorrer no Rio de Janeiro em setembro 1965, ou seja, mais de um ano depois que o “Tribunascope” acabou.

LEIA TAMBÉM:

>> Elza Soares e Iza são as estrelas do line-up do Coolritiba 2022; ingressos a partir desta quinta

Foto: Plateia recepciona a atriz Janet Leight, estrela de “Psicose”, no Cine Vitória, por ocasião do 5º Tribunascope, em 13 de abril de 1964. Acervo: Diretoria de Patrimônio Cultural da Fundação Cultural de Curitiba.

História

A história do festival é contada no livro “Tribunascope: de Calçada da Fama à Guia da Calçada; memórias de um festival internacional de cinema”, do historiador curitibano Vidal Antônio de Azevedo Costa, 58 anos, e da jornalista e historiadora curitibana Maria Christina Baptista Pinto, 56 anos. O lançamento do livro ocorreu no dia 11 de dezembro, no Sesc Paço da Liberdade de Curitiba, na Praça Generoso Marques, e contou com a presença do filho de João Féder, fundador da Tribuna do Paraná. Feder faleceu em Curitiba no dia 8 de outubro, aos 83 anos.

Foto: Cine Vitória na [década de 1980]. Acervo: MIS-PR

“Ficamos em êxtase com a presença inesperada do filho, Jean Féder. Ele nos contou que tem em casa uma estatueta do Tribunascope. Procuramos uma estatueta como essa antes de finalizar o livro, agora, já editado, encontramos. O Museu da Imagem e do Som do Paraná (MIS), que nos cedeu fotos de arquivo da estatueta, também tem uma, mas não sabíamos. São coisas que acontecem depois da obra pronta”, conta Azevedo.

Com o livro, a história do cinema ganha um registro inédito por meio dos autores, que se dedicaram ao levantamento de relatos, fotos e registros do “Tribunascope”. E esse resgate histórico coloca Curitiba no eixo do cinema nacional, com a realização de um grande evento fora região Rio-São Paulo.

O Troféu Tribunascope, com o característico jornaleiro envolto no rolo de filme, um sobrevivente preservado dos muitos entregues aos ganhadores do “Oscar Paranaense”. Foto: Acervo MIS

Astros de Hollywood

Segundo os registros, o festival era um sucesso. Nas últimas edições, teve a presença de astros de Hollywood no auge da fama, como os atores do filme Psicose, Anthony Perkins e Janet Leigh, como o ícone dos adolescentes Troy Donahue, também Nancy Kovacs, Mary Welles, Stathis Giallelis e Harry Stone. “Vinham atores e personalidades brasileiras também, como a Annik Malvil, conhecida como a Francesinha, e até o Jece Valadão”, ressalta o autor.

Foto: Cinelândia curitibana na Rua XV de Novembro, final dos anos de 1960.

Com tanta presença ilustre, uma calçada da fama nasceu. Ela ficava em frente ao Cine Vitória. Segundo os autores, ela foi cultuada por muitos anos. Depois, quando o Cine Vitória encerrou as atividades, a calçada foi transferida para a lateral do Teatro Guaíra. “Foi nos anos 1990. A calçada ficou ali no Guaíra por uns 17 anos. Foi ela, aliás, a primeira referência que tivemos para o livro, que nasceu lá atrás, com o nosso projeto de conclusão da graduação de História, na UFPR”, destaca Azevedo, se referindo ao trabalho em dupla com a autora Christina Baptista.

“Na época da graduação, ficamos sabendo da calçada da fama e a visitamos no Guaíra. Estava ali, fora de contexto, sem referência nenhuma. Agora, depois de 30 anos, por uma das tantas coincidências que ocorreram durante a elaboração do livro, a encontramos guardada no mesmo prédio onde era o Cine Vitória”, conta a Christina Baptista, se referindo ao antigo Centro de Convenções de Curitiba, na Rua Barão do Rio Branco, hoje sede da Universidade Estadual do Paraná (Unespar).

Calçada da fama do Tribunascope guardada na Unespar. Foto: Vidal Antônio de Azevedo Costa

“Estava numa sala da Unespar. O material não está intacto, está em pedaços, mas, depois que remexemos na história e resgatamos a existência da memória da calçada da fama, há um movimento da Unespar e do poder público para organizar a preservação da calçada da fama. O que é muito importante”, revela Azevedo.

LEIA TAMBÉM:

>> HBO Max confirma “Homem-Aranha 3” e novo Matrix em 2022

Pesquisa

O livro sobre o “Tribunascope” é o 16.º volume da Coleção A Capital, lançado pela Factum Editora e editado por Tatiana Marchette. Originou-se de um trabalho de conclusão da graduação dos autores, que nos anos 90 cursaram História, na Universidade Federal do Paraná. “Na época do projeto da graduação, quando falamos com o colunista Aramis Millarch, ele nos sugeriu o tema do festival para a pesquisa, que veio ao encontro do que a gente queria, que o tema pudesse, um dia, representar um salvamento de memória. O livro é isso, uma obra para levar esse entusiasmo aos leitores”, destaca a autora. Millarch era um jornalista paranaense reconhecido, especializado em música, cultura e cinema do Brasil. Ele faleceu em 1992.

Vidal Antônio de Azevedo Costa, Jean Feder e Christina Baptista. Foto: divulgação.

Para a diretoria de jornalismo atual da Tribuna no Paraná, essa memória resgatada da participação de Curitiba na história do cinema internacional, reflete a raiz do que foi a criação da Tribuna para João Féder: um jornal daqui. “Convivi muito com o saudoso João Féder. Os olhos dele brilhavam quando batiamos papo sobre aquele tempo. O Tribunascope era algo que o enchia de orgulho. E com razão! Foi algo muito grandioso pra época, ainda mais organizado por um jornal local”, destaca Rafael Tavares, diretor de jornalismo.

O livro “Tribunascope: de Calçada da Fama à Guia da Calçada; memórias de um festival internacional de cinema” foi realizado por meio do mecenato subsidiado da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, da Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba, com incentivo das empresas Iveco e Florença. A obra tem 176 páginas e está à venda por R$ 25 no site da Factum e pela livraria do Sesc Paço da Liberdade de Curitiba.

Pantanal

Zuleica não aceita morar na fazenda com os filhos

Além da Ilusão

Davi expulsa Iolanda de casa

Novidades da Netflix

Filmes e séries que chegam à Netflix nesta semana

Estreia da semana

5 curiosidades sobre “O Telefone Preto”