A distância dos alunos das escolas tem preocupado os pais com a saúde física dos filhos pelos riscos de contágio da covid-19. Mas o comportamento das crianças longe do ambiente escolar, dos amiguinhos, também têm demonstrado mudanças sutis no comportamento que merecem atenção. Será que a saúde emocional dos pequenos vai bem longa da escola?

Para descobrir, o alerta dos profissionais é para que os familiares não percam qualquer detalhe. Afinal, o isolamento social, a falta do convívio direto com os colegas de escola e a presença constante do “olhar” dos pais em casa pode deixar as crianças ansiosas, irritadas e até mesmo mais isoladas em si mesmas. E elas vão precisar de apoio para lidar com isso.

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Segundo a psicanalista Barbara Snizek Ferraz de Campos, 47 anos, que atua em atendimento clínico em Curitiba há 22 anos, lidar com o isolamento da pandemia não é algo fácil para as crianças. Além da falta do contato com os colegas da mesma idade, elas ainda estão tendo que lidar com o convívio intenso em família.

“Na escola, há o equilíbrio das relações entre os colegas que estão na mesma fase de desenvolvimento. Não é regra, mas a criança tem mais oportunidade de extravasar seus sentimentos e conquistar seu espaço de uma maneira, digamos, mais justa. Em casa, o olhar dos pais é vigilante. Há a questão da autoridade sempre presente, sem possibilidade de troca de posições com os filhos. As crianças podem entender que tem um espaço mais limitado”, explica a psicanalista.

É o que sente o analista de sistemas Fernando Pereira Faloppa, 39 anos, que mora em um condomínio e passou por mudanças familiares bruscas na pandemia. Ele e a esposa são pais do Léo, de 10 anos, e do Lucas, de 4 anos. “Trocamos de emprego porque fomos demitidos no início da quarentena. Tivemos que nos adaptar para pagar as contas e uma das decisões foi mudar o filho mais velho da escola particular para a pública”, conta Faloppa.

Na escola pública, vieram as aulas pela televisão e internet, o que mudou o comportamento de Léo. “É diferente. Sentimos que ele ficou mais ansioso e quieto. As aulas são curtas. No tempo livre, ele fica procurando algo para comer e também tem preferido ficar no apartamento jogando videogame do que descer para brincar na quadra de esportes. Algo que ele gostava bastante”, conta o analista de sistemas.

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De acordo com o Fernando Faloppa, a ansiedade do filho mais velho preocupa. Porém, o pai conta que jogando videogame ele mantém contato com os amigos da antiga escola. “Eles jogam on-line e conversam bastante. Tem esse lado positivo”, diz o pai.

Já o filho mais novo, segundo Faloppa, parece não ter sentido tanto. “Ele ficava na creche. Agora tem ficado com a avó, que foi professora. Ele está mais tranquilo e ainda aprende conteúdo com ela. Ano que vem vamos ver o que faremos”, conta o pai.

Estrutura mental

Conforme a Barbara Campos, a mudança brusca na rotina do convívio familiar provocada pela pandemia trouxe desafios a serem vencidos em várias áreas, não só da falta da escola. “A estrutura psíquica da criança não é tão preparada para enfrentá-los como a de um adulto”, aponta a psicanalista.

Segundo a especialista, não quer dizer que todas as crianças que estão isoladas na pandemia terão alterações de comportamento e vão sofrer com isso. Também não significa que qualquer mudança de comportamento seja um problema. Vai depender de como a criança está reagindo emocionalmente e se isso está, de fato, afetando a saúde de alguma forma.

Para identificar se é hora de procurar auxílio profissional para os filhos, os pais devem ficar atentos a sinais como irritação, insônia, medo exagerado, ansiedade ou até uma compulsão como, por exemplo, roer unhas.

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“Cada caso é muito particular. É normal que haja sofrimento nas crianças nesse momento. Até nos adultos, pois estamos aprendendo a lidar com tudo isso. Mas esses sinais comportamentais na criança podem indicar algum problema mais sério. E elas podem não falar nada, só demonstrar dessa forma”, aponta Barbara Campos.

Início das aulas

Já a preocupação do engenheiro eletricista Alexandre Ceruti, 40 anos, também morador de Curitiba, é com o início das aulas para o filho João, de 4 anos, ano que vem. O menino nunca foi para a escola e a ideia de um ensino híbrido, com aulas presenciais e on-line, deixa ele e a esposa ansiosos. “Não sabemos como vai funcionar. Ele nunca foi para a escola e, pela idade, tem que começar em 2021. Temos receio de como ele vai se comportar, como será essa adaptação se a escola se mantiver pela internet”, conta Ceruti.

Alexandre Ceruti está preocupado como ser a o primeiro ano de escola do filho João em 2021. Foto: Arquivo Pessoal

Segundo a Vanessa Carzino Beira, 35 anos, coordenadora pedagógica de uma escola particular em Curitiba e professora em uma escola pública de Pinhais, região metropolitana, ambas da Educação Infantil, a preocupação do engenheiro eletricista com o emocional do filho é válida, considerando os registros que têm ocorrido durante a pandemia. “Nas aulas on-line, pelo contato que temos com as crianças nesses momentos, temos relatos de algumas com depressão, com síndrome do pânico, até as que falaram em suicídio. Professores e pais também com depressão, pedindo socorro para a escola porque se sentiram impotentes nas aulas on-line”, revela Vanessa Beira.

Ela conta que as escolas procuram identificar casos assim e oferecer ajuda psicológica o mais rápido possível.”Os pais da escola particular costumam aceitar melhor esse apoio, mas mesmo assim ainda há preconceito em relação a isso. Mas é bom salientar que o quanto antes identificar, antes se consegue contornar as dificuldades”, diz a coordenadora. “Na escola pública é mais difícil, pois o contato com as crianças é menor. Ocorre quando os pais vão na escola para entregar as atividades obrigatórias que os filhos fazem pelo sistema de transmissão das aulas pela TV e internet”, explica.

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Vanessa Beira entende que o retorno das atividades presenciais é fundamental para o equilíbrio emocional dos alunos. “Voltar é uma aposta alta com a pandemia. Há uma preocupação com o bem-estar dos alunos e funcionários, têm todos os protocolos sanitários para seguir. Mas é muito melhor as crianças dentro da escola, com os colegas, perto dos professores, do que no afastamento”, defende.

Barbara Campos alerta, no entanto, que a escola estará diferente nesse momento. “A parte mais legal da escola não vai ficar. As crianças terão que pedir para ir no banheiro, não vão poder interagir com outras turmas, não vai ter tanto parquinho, aquela história de todos nos recreios. Não tem fórmula mágica. Algumas crianças vão voltar bem, outras nem tanto”, conclui.