Lídia já teve Covid-19. Quando a ricaça recebe o homem que veio consertar a torneira do banheiro de sua casa, um apartamento de sonhos com Portinaris pelas paredes, se permite ficar sem máscara e diz: “pode tirar a máscara, eu já tive Covid, tenho anticorpos”.

Thelma também já teve Covid. Parada num semáforo dentro de seu carro, vê sua amiga Lurdes na calçada e a repreende: eu já tive a doença, mas você ainda não, então não deveria estar passeando por aí.

Quando as personagens da novela “Amor de Mãe”, vividas respectivamente por Malu Galli, Adriana Esteves e Regina Casé, reapareceram nas noites da televisão brasileira, no último dia 15, causaram desconforto nos telespectadores por tais cenas.

Pelo menos desde dezembro sabe-se que há reinfecção pelo coronavírus e acompanhamos casos confirmados no país. Por isso, algumas falas da novela das nove causaram revolta nos fãs, que, como diz o meme, xingaram muito no Twitter.

As gravações de “Amor de Mãe” foram interrompidas em março de 2020 por conta da pandemia e, ao serem retomadas, entre agosto e novembro, incorporaram a pandemia à trama de uma mãe que busca seu filho perdido há anos. Em agosto não sabíamos nem mesmo, por exemplo, se teríamos vacinas eficazes contra o vírus.

“Hoje está confirmado que o Sars-Cov-2 realmente está associado com reinfecção, por linhagens diferentes ou pela mesma linhagem com mutações específicas. Se há uma informação divergente, ela está anacrônica, deve ser revisada ou contextualizada”, diz a virologista Jordana Coelho dos Reis, professora do departamento de microbiologia da UFMG.

O anacronismo era um risco assumido pela autora, Manuela Dias, e pelo diretor, José Luiz Villamarim, ao fazerem entrar na história da novela uma doença sobre a qual descobrimos coisas novas a cada dia.

No dia 19, a emissora passou a exibir, ao final de cada capítulo, uma cartela com o aviso: “Mesmo quem já teve Covid-19 pode ser reinfectado e deve manter todos os cuidados. Quando esta novela foi gravada, não havia conhecimento científico sobre essa possibilidade”.

“A pandemia evoluiu muito, tanto em número de casos quanto no conhecimento acerca da infecção. Antes achávamos que havia uma única linhagem circulante e hoje sabemos que são mais de 400”, diz Dos Reis.

Para Heloisa Buarque de Almeida, professora do departamento de antropologia da USP, a Globo fez a correção porque sabe que tem o poder de influenciar comportamentos. “Ela sabe que as pessoas vão dizer ‘ah, mas a novela disse’.”

A comunicação da emissora diz que os capítulos de “Amor de Mãe” já estão todos gravados e que, neste momento em que está sendo exibida, “aumentou muito o conhecimento sobre o vírus e a doença que ele causa”. Ela diz ainda que achou importante “atualizar a informação sobre a possibilidade de reinfecção, utilizando a cartela ao final do capítulo” e lembra que os conteúdos da emissora estão sendo gravados dentro de um protocolo de segurança.

Outras reclamações nas redes sociais dizem respeito ao uso pelos personagens das máscaras de tecido, que começam a ser deixadas de lado em muitos países, que privilegiam as PFF2 ou o uso de duas máscaras sobrepostas. Para Dos Reis, é importante incentivar o uso de máscaras de tecido, mais acessíveis a todas as classes sociais. “O uso adequado de uma boa máscara de pano ainda continua tendo um valor muito grande na prevenção da infecção”, diz.

Mas será então que “Amor de Mãe” devia ter seguido seu curso ignorando a pandemia, como fez “Salve-se Quem Puder”, a novela das sete que voltou ao ar nesta segunda, reexibindo os capítulos iniciais? “Por ser uma trama de forte cunho realista, eu compreendo que seja extremamente necessário que se fale disso, porque soaria falso não abordar a pandemia”, diz Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP e autor do livro “A Hollywood Brasileira”.

“Neste momento, em que é preciso construir novos comportamentos, incluí-los na novela é um método muito eficiente de transformação de modos de agir”, diz Almeida. Ver Sandro e Betina (Humberto Carrão e Isis Valverde) vestindo máscaras ao entrar no elevador do prédio em que moram pode, quem sabe, mobilizar aquele seu vizinho mais folgado.

“As pessoas que têm menos informação sobre um assunto se sentem aprendendo mais por meio da televisão, e com a novela especialmente, porque ela vai passando no meio de outras coisas com as quais as pessoas têm envolvimento afetivo. A novela opera com emoção.”

Há, porém, telespectadores com outras fontes de informação e foram eles que reclamaram por retificação, diz a professora.

Vemos na casa de Lurdes a trabalheira que é limpar as compras do mercado, espirrando álcool em tudo, esfregando sabão ou água sanitária. Rimos solitários quando os filhos da personagem, vivida por Casé, se desesperam porque ela saiu escondida de casa. É um misto de alívio e de graça ver na novela plasmados os novos perrengues do cotidiano.

Almeida lembra, contudo, que a reprodução das atitudes de personagens pelos espectadores não é um jogo de imitação, mas algo mais complexo. “Não existe a pessoa média que assiste a novelas, e não vai haver um comportamento de todo mundo fazendo igual”, diz ela, para quem a pandemia é um exemplo de como as reações na sociedade diferem muito.

“A pessoa não vai seguir a novela como uma cartilha, mas influencia, sem dúvida alguma”, diz Alencar. “As novelas organizam a sociedade, é um fator agregador, estabelece pautas e propõe temas.”

Novelas já ajudaram a chamar a atenção para outras pautas sociais importantes. Alencar rememora como a aprovação do Estatuto do Idoso foi acelerada por conta de “Mulheres Apaixonadas”, de 2003, na qual Doris, vivida por Regiane Alves, batia nos avós.

“Quando as novelas fazem uma campanha, tem um impacto, porque elas têm um discurso de autoridade”, diz Almeida.

A ficção, porém, exige artifícios e há de se reconhecer que o trabalho dos atores e dos roteiristas ficaria por demais dificultado se personagens tivessem de usar máscaras o tempo todo e não pudessem sair de casa.

Quantos de nós, recolhidos a nossos sofás e sem contato com o mundo exterior, poderíamos dizer que seria possível fazer de nossa vida atual uma novela? No caso desta repórter, que mora sozinha, está em teletrabalho e só sai de um pequeno apartamento numa cidade grande sem vista para o céu para ir ao mercado, o resultado da trama seria enfadonho.

Há cenas, porém, que deixam aflito aquele espectador que esteja seguindo à risca as recomendações de distanciamento social. Pessoas gritando sem máscara, perdigotos voando, abraços entre pessoas que não vivem na mesma casa ou o ímpeto dos personagens em tirar as máscaras para conversar, mesmo que guardando o distanciamento entre eles, mas em lugares fechados. Cabe ao espectador angustiado engolir seco e repetir para si mesmo “é só uma novela, é só uma novela”.

Novas descobertas sobre o vírus e novas regras para evitar a contaminação ainda podem surgir, e podemos ver, até dia 10 de abril, quando “Amor de Mãe” terá seu fim, novos avisos de retificação. “Não podemos mais falar que comportamentos como o uso de máscara, distanciamento e isolamento são temporários e que em breve estaremos bem. Estamos falando de uma nova era”, lembra a professora de microbiologia.