Considerada a capital mais fria do país, as baixas temperaturas fazem parte da identidade de Curitiba. Além de serem usadas como argumento para justificar uma suposta frieza na personalidade de quem nasceu por aqui (um mito que transcende os séculos), o frio também traz mudanças importantes em nossos cartões-postais. Se durante muitos anos as geadas e a promessa de neve — experiência inesquecível de 1975, timidamente repetida em anos posteriores, como 2013 — marcaram o imaginário popular da Curitiba invernal, a partir dos anos 2000 a cidade ganhou novas cores: o cor-de-rosa das cerejeiras e o laranja dos liquidâmbares.

Diferente de outras espécies de plantas que figuram na cidade, como os ipês e as cerejeiras, o nome “liquidâmbar” ainda não está na “boca do povo”. Mas está nas centenas de fotografias compartilhadas diariamente nas redes sociais durante o outono. Essa é a espécie que faz sucesso na Rua Deputado Heitor Alencar Furtado, no bairro Mossunguê, que nos anos 2000 recebeu cerca de 850 mudas da planta.

A ideia inicial era criar um túnel verde para a canaleta do expresso do Mossunguê — mas o que acabou chamando a atenção foi mesmo o alaranjado que colore as folhas durante esta estação, em um cenário que lembra muito alguns países estrangeiros. E existe um porquê: a liquidâmbar não é uma planta nativa, mas sim originária da América do Norte. “Esse paisagismo da rua é interessante para que as pessoas tenham conhecimento de certas espécies”, comenta José Roberto Roloff, que é diretor de produção vegetal de Curitiba.

Árvore faz sucesso na Rua Deputado Heitor Alencar Furtado, no bairro Mossunguê. Foto: Lineu Filho/Tribuna do Paraná.

Identidade local

Roloff conta que a escolha das árvores faz parte de um planejamento urbanístico que busca trazer personalidades diferentes a espaços específicos de Curitiba. Assim, cada parte da cidade ganha um visual próprio. “Você acaba fazendo uma identidade de paisagismo das ruas em cada região, para que sempre tenha algum local diferenciado para as pessoas admirarem, buscarem”, conta. São exemplos a Avenida Getúlio Vargas, quase completamente acompanhada por árvores tipo tipuana; os ipês na João Gualberto e Avenida Paraná e, no inverno, as cerejeiras que marcam lugares como a Praça do Japão, a Praça Tsunessaburo Makiguti e a rua Anita Garibaldi.

As cerejeiras chegaram em Curitiba em 1994, com mudas importadas diretamente do Japão e, primeiramente, restritas às praças. Simbolizam a grande comunidade nipônica que faz parte da cidade. A partir dos anos 2000, as cerejeiras passaram a fazer parte também da arborização de ruas, com cultivo no “berçário de flores” de Curitiba, o Horto Municipal localizado no Guabirotuba. Conhecida como sakura, em japonês, a planta floresce uma única vez por ano, entre o final de junho e o início de julho, estimulada pelo frio. Assim, quando você avistar a primeira flor de cerejeira desabrochando, aproveite: a florada dura apenas entre 10 a 15 dias.

José Roberto Roloff coordena o plantio de mudas no Jardim Botânico. Foto: Divulgação/SMCS.

Troca das flores

Já nos parques e praças de Curitiba, algumas flores são escolhidas justamente por sua durabilidade, também aliada à beleza, como é o caso dos beijinhos e begônias. Plantadas em setembro, quando do final do outono e início da primavera, elas sobrevivem até a primeira geada, conta Roloff. Mas de forma geral, todos os parques e praças passam por um total de quatro trocas de plantas por ano: uma delas em maio, visando adequar os jardins às baixas temperaturas. 

O espaço que inaugura o período de troca das flores é o Jardim Botânico. Prevista para o início de maio, neste ano a operação foi adiada em duas semanas por conta das medidas restritivas de contenção da Covid-19. Ao todo, foram plantadas 100 mil mudas de amor-perfeito de cores mistas e, no canteiro central, nas cores amarelo e azul com branco, para trazer contraste àquele que é o espaço favorito para as fotografias dos visitantes.

Já para o restante da cidade foram selecionadas três espécies de flores: amor-perfeito, boca-de-leão e cravinas. Para dar conta de todos os parques, praças e canteiros de avenidas, foram produzidas mais de 500 mil mudas. “São espécies que toleram baixas temperaturas, então podem ir para três, quatro, cinco graus que elas toleram o frio negativo”, conta Roloff. “Podemos dizer que são espécies históricas em Curitiba: são as espécies mais resistentes ao frio”.

Roloff acompanha de perto a mudança nas paisagens curitibanas há mais de 36 outonos, quando entrou para o funcionalismo público na capital, sempre na Secretaria do Meio-Ambiente. E o que pôde perceber encontra eco nos estudos dos especialistas: ano após ano, Curitiba tem visto uma queda nas ondas de frio que caracterizavam o clima da capital. Um reflexo das mudanças climáticas, aponta José, mas também do crescimento da cidade. “A cidade cresce e aumenta a temperatura, infelizmente. Aqui, as geadas já não são tão fortes quanto antigamente. Antes, na época de abril já tínhamos geada, neste ano, a primeira e fraquinha veio na última semana de maio”, conta. “Tudo isso altera o ciclo das plantas e da gente também”.