Entre as tendências de trabalho aceleradas pela pandemia, a mais marcante é a adoção ampla do home office. Antes questionado por algumas empresas como potencial fator de queda de produtividade, o regime ganhou espaço por garantir altos níveis de entrega enquanto possibilita mais flexibilidade aos funcionários.

Essa liberdade pode ir desde o uso de roupas informais durante as atividades até a realização do trabalho em diferentes endereços ao longo do ano.

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É o caso de Matheus de Souza, autor do livro “Nômade Digital: Um Guia para Você Viver e Trabalhar Onde Quiser” (ed. Autêntica Business, 158 págs.), finalista do prêmio Jabuti de 2020 na categoria economia criativa. Desde 2017 na estrada, Matheus presta serviços como redator, além de dar cursos de escrita online.

“Nômade é uma pessoa sem residência fixa, sempre em movimento. Não é novidade na humanidade.” A novidade vem da palavra digital, que aponta para o profissional que depende da internet para trabalhar.

Antes de se tornar um nômade, Matheus trabalhava como assistente de marketing em Santa Catarina e, após uma negativa de seus chefes sobre a possibilidade de fazer home office, decidiu tentar carreira como redator freelancer. Seis meses depois, com uma boa reserva de dinheiro, ele começou a testar alguns destinos, como México e Tailândia.

Matheus conta que as redes de nômades digitais são essenciais para descobrir mais sobre os destinos. Uma prioridade é que, além de caber no bolso, o local escolhido ofereça uma estrutura funcional de trabalho, com internet rápida e confiável.

O mesmo vale para hospedagem: o redator prioriza apartamentos privativos, com cozinha. “Um nômade digital não é um mochileiro, não é um turista. Você está lá tentando viver como local”, diz.

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Essa vivência, porém, não passa pelo trabalho. Com visto de turista, Matheus afirma que 95% de seus clientes são brasileiros, assim como os alunos dos cursos de escrita. “A gente fica em um limbo de entrar como turista, mas trabalhar e pagar impostos no Brasil”, conta.

A pandemia e a aceleração da transformação tecnológica colocaram o nomadismo digital no radar de países como Estônia, que agora oferecem vistos especiais para esse tipo de trabalho. O passaporte brasileiro, porém, é barrado ou aceito com restrições em mais de cem países por causa da pandemia de Covid-19.

“Antes, passava cada mês em um lugar, mas entendi que estava faltando estabilidade”, diz Laís Schulz, que vive atualmente em Porto (Portugal).

Ela afirma que a pandemia mudou sua relação com o nomadismo digital, do qual é praticante há cinco anos. “Todos estão entendendo que existe outra forma de trabalhar e que tudo bem se não for perfeito o tempo todo.”

Uma das “top voices” do Linkedin deste ano, ela fundou em 2019 a própria empresa, Be Freela, especializada em marketing.

Levantamento do Vagas.com indica que o número de trabalhos com possibilidade remota ofertados saltou de 594 de janeiro a novembro de 2019 para 2.130 em 2020, o que representa 2% dos anúncios atualmente.

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De olho na demanda específica por boas vagas remotas, Tatiana Di Rienzo começou a pesquisar e fazer curadoria de oportunidades de emprego remoto, postando-as em um site. Recém-demitida de um emprego em São Paulo, ela começou a pesquisa após se mudar para o Rio de Janeiro com a namorada e encontrou dificuldades de conseguir uma recolocação.

Assim, o projeto de buscar vagas acabou virando um trabalho. Ganhou mais três colaboradoras e foi batizado de Remotar, agência nascida na pandemia e exclusiva para vagas remotas. “Poder trabalhar de Campinas ou de Bali é incrível, mas não é só isso que nos motiva”, diz.

Tatiana acredita que o trabalho remoto pode ser mais inclusivo. “Mães que acabaram de ter filhos não precisam entrar na estatística e parar de trabalhar por isso, ou as pessoas com deficiência e problemas de locomoção”, afirma.

Assim como a empresária, Lázaro Daré, 27, do atendimento ao cliente da empresa de tecnologia Aktie Now, teve que pedir demissão do emprego para acompanhar o parceiro em uma mudança de carreira e, depois de alguns meses vivendo em Lisboa em um período sabático, começou a procurar uma recolocação.

A condição, para Lázaro, era que a vaga fosse remota e em uma empresa brasileira. Embora o pai seja português, Lázaro cresceu no Brasil e viveu em Portugal apenas durante a graduação e o mestrado. “Ter a chance de aproveitar Portugal, mas trabalhando em um ambiente e com uma cultura que conheço é perfeito”, afirma.

Questões práticas, como a diferença de fuso horário de três horas, não impedem que Lázaro realize o trabalho normalmente. Ele aproveita o tempo da manhã para fazer academia, arrumar a casa e almoçar. Para por volta das 20h30.

Os colegas receberam a notícia da ida a Lisboa com curiosidade. “Fiz uma videoconferência usando cachecol outro dia e todos logo vieram perguntar como estava o tempo.”