Desde a notícia da gravidez, o momento do parto é esperado com muita expectativa e ansiedade pelas gestantes. Se é assim em “tempos normais”, com a pandemia do novo coronavírus foram somados a esses sentimentos a incerteza e uma série de preocupações: quais são os riscos que mãe e bebê correm em um ambiente hospitalar em tempos de pandemia? Será permitido acompanhante durante o parto? Um parto domiciliar pode ser a melhor opção?

Primeiramente, é preciso lembrar que, apesar da falta de evidências convincentes com relação aos efeitos teratogênicos (que podem causar danos ao embrião ou ao feto durante a gravidez) causados pelo vírus, gestantes e puérperas até 15 dias após o parto são consideradas grupo de risco para a Covid-19. “Como todo quadro viral, de uma certa forma, sempre acomete mais severamente as gestantes. Isso porque, potencialmente, elas têm suas defesas diminuídas e, por isso, a orientação do Ministério da Saúde é que temos que considerar gestantes como grupo de risco”, afirma o médico obstetra, Ricardo Porto Tedesco, professor da faculdade de Medicina de Jundiaí e membro da comissão da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

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Com isso, o pré-natal, o parto e o puerpério durante a pandemia passam a exigir uma série de cuidados a mais. De acordo com o médico obstetra do Grupo Nascer, de Curitiba, Álvaro Silveira Neto, as orientações quanto aos cuidados e prevenções para as gestantes são as mesmas para toda a população: distanciamento social, cuidados ao tossir ou espirrar, lavar as mãos, uso de álcool gel e uso de máscara de proteção adequada. Quanto às consultas de pré-natal, os médicos estão optando por agendá-las de maneira mais espaçada para evitar que a gestante saia muitas vezes de casa. E além disso, as clínicas de exames não estão permitindo a entrada de acompanhantes para evitar aglomerações.

Parto hospitalar

Segundo Tedesco, apesar de ser compreensível, não há motivo para grandes preocupações em relação ao parto. O obstetra afirma que os hospitais estão bem estruturados, no sentido de oferecer um espaço físico e condições de atendimento específico e especial para as gestantes, inclusive para aquelas que se apresentam com algum quadro gripal ou problema respiratório. “A rigor não haveriam riscos adicionais uma vez que ela não estará em contato com os pacientes que estão em isolamento”, explica Tedesco. Mesmo assim, algumas mudanças têm sido orientadas. “O parto na banheira, por exemplo, não é aconselhável”.

Por lei, é direito da gestante ter um acompanhante de sua escolha durante o trabalho de parto, o parto e puerpério imediato, lembra Neto. É importante que ambos façam o uso de máscara durante todo o período. A presença do acompanhante só não é aconselhável se ele for do grupo de risco.

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“Nos casos suspeitos ou confirmados sem sintomas ou sintomas leves não ocorre mudança em relação à condução e acompanhamento do trabalho de parto. Consideramos diminuir exposição ao tempo de hospital, se possível com alta médica mais precoce”, explica Neto.

Em relação à via de parto (cesariana ou natural), o obstetra lembra que é sempre o médico que, observando as condições, irá decidir qual é a via adequada para cada caso. “Até então não existe relato de transmissão do vírus pela secreção vaginal. A possibilidade de transmissão vertical (gestante transmitindo o vírus durante o curso gestacional) permanece controversa na literatura científica. Não há informações de grandes casuísticas, mas os principais relatos não indicam transmissão vertical”, afirma Neto.

Caso a puérpera seja Covid positivo, o contato pele a pele (mãe e recém-nascido) deve ser restrito para minimizar a transmissão para o bebê. Nesses casos, a amamentação não é contraindicada, mas é fundamental que a lactante use máscara e lave rigorosamente as mãos antes de segurar o bebê.

Parto domiciliar

Quando se fala em parto domiciliar, a primeira coisa a se pensar é que um parto nesse modelo deve seguir uma série de critérios: ser uma gestação de baixo risco, ter conhecimento da estimativa do peso fetal, contar com uma equipe treinada e morar próximo de um hospital. De acordo com Tedesco, muitas mulheres estão optando por ter um parto em casa para não se expor a riscos durante a pandemia, mas esquecem que os riscos estão em todos os lugares.

“Tanto nas maternidades como no parto domiciliar deve-se atentar ao máximo quanto ao distanciamento, evitando um número excessivo de pessoas no momento do nascimento, manter o uso de EPI’s para as equipes e o uso de máscara para a gestante e o (a) acompanhante”, reforça o obstetra do Grupo Nascer.

E foi consciente de todos esses cuidados que a produtora de TV Dayane*, de 30 anos, optou, junto com seu esposo, pelo parto domiciliar durante a pandemia. “Já tínhamos o desejo de fazer o parto domiciliar. Estudamos e vimos que era seguro porque eu estava dentro de todos os critérios necessários”, conta a produtora curitibana, que deu à luz ao seu bebê no início de maio. “Eu ainda tinha um pouco de medo, mas como minha gravidez era de baixo risco, estava tudo bem comigo e com o bebê, então fizemos essa opção e conseguimos. Foi uma bênção, deu tudo certo, nosso menino nasceu saudável e bem”.

Para Neto, a decisão da mulher e do casal em relação ao parto domiciliar programado não deve se ancorar na pandemia ou apenas na pandemia. “O casal não deve decidir pelo parto domiciliar somente por causa da pandemia e sim quando eles se identificam com o modelo e estilo de abordagem do parto domiciliar”, orienta.

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Apoio da família e amigos

Nesse momento, é realmente muito importante que a gestante possa contar com o apoio e proteção daquelas pessoas em que ela confia. “A família precisa contribuir com o isolamento social dessa mulher e, principalmente, evitar visitas mesmo após o nascimento”, alerta Tedesco. “Aliás, isso também mudou nos hospitais, não estão aceitando visitas e a gestante nem pode visitar a maternidade antes do parto para conhecer”. Segundo o obstetra, o mais importante é ajudar essa mãe com o máximo de informações, dando todo o suporte e tranquilizando-a.

Após o parto os cuidados de distanciamento social, higiene das mãos e uso de máscara devem ser mantidos, reitera Neto. Afinal, a puérpera continua sendo grupo de risco por mais 15 dias. “A família pode se fazer presente por chamadas de vídeos e ajudando com as compras e outras tarefas”, sugere. “Temos observado eventos relacionados à parte emocional com mais frequência, como depressão pós-parto nesse momento”. Por isso, mais do que nunca, a presença e apoio a essas mães, mesmo que a distância, se tornam ainda mais importantes.

*a entrevistada não quis se identificar


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