Sentimentos de insegurança, ansiedade, angústia, desânimo e tristeza são naturais ao longo da vida e se tornaram mais comuns na rotina de coronavírus. E quando eles começam a fazer parte da rotina, é preciso falar sobre eles. Por isso, a Campanha Setembro Amarelo, de prevenção e combate ao suicídio, tem sido muito importante, principalmente durante esse período de luta contra um inimigo invisível.

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A incerteza da duração da pandemia e as consequências dela, como o desemprego e conflitos familiares, abalou a saúde mental de muita gente e tem sido um peso maior em quem já lida com ansiedade e depressão. O estresse provocado pela doença impacta não só a economia com as nossas mentes, mas ainda aumenta o risco do desenvolvimento de transtornos mentais. O momento tem sido muito difícil para muitos, mas é possível reverter e lidar com a situação com menos sofrimento.

Falar sobre o assunto tem sido fundamental para aliviar toda a angústia. É o que defende a psicóloga Margareth Bolino, coordenadora do serviço Tele Paz, da prefeitura de Curitiba. “Falar é, antes de tudo, o mais importante. Quando a gente fala sobre esse sofrimento, a gente reordena esses sentimentos. Faz repensar, refletir. É preciso falar sem medo de julgamento”, esclarece a psicóloga. 

Desde o dia 27 de março, o serviço de Tele Paz já realizou cerca de 2100 acolhimentos emocionais, quase todos relacionados à ansiedade causada pela pandemia. São elas, cerca de 70% dos atendimentos, que mais ligam para desabafar. A faixa etária mais comum costuma ser entre os 30 e 40 anos e também dos 55 aos 65 anos. “São assuntos que envolve o isolamento social, as restrições sociais, a convivência familiar. O medo e o pânico causados pela doença, medo de ser contaminado e de contaminar alguém mais próximo, de afeto”, esclarece a coordenadora do serviço.

As ligações costumam durar em média de 20 a 30 minutos, mas há situações em que a pessoa passou mais de uma hora no telefone desabafando. “A gente está ali para escutar, mas caso a gente perceba que a pessoa corre risco, uma equipe de atendimento do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) é acionado”, explica. Em Curitiba, quem não tem condições de pagar por uma sessão de terapia, pode receber atendimento gratuito pela prefeitura, nos Caps, ou mesmo entrar em contato com as universidades que oferecem atendimento psicológico gratuito, como a UFPR e PUCPR.

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“Ninguém está imune”

De acordo com a psicóloga da prefeitura, a pandemia trouxe uma aumento importante dos conflitos familiares. Como a situação impôs uma maior convivência, os problemas ficaram mais evidentes. E nos desabafos do Tele Paz, as pessoas conta sobre questões envolvendo parceiros, filhos, situações de depressão e angústia. “Numa síntese, são relatos de dores físicas, alterações no sono e na alimentação, nervosismo e irritabilidade”, revela.

Os atendimentos pela pandemia identificou dois eixos diferentes: das pessoas que já tinham questões antes da pandemia, mas que a situação se agravou, de situações emocionais pré-existentes; e de quem era emocionalmente estável, mas que começou a vivenciar pressões emocionais. “Ninguém está imune, não tem nenhuma pessoa que esteja imune a esse tipo de situação. Cada pessoa lida com essas emoções de uma forma, algumas de maneira mais saudável, outras de maneira mais reticente”, analisa a psicóloga. 

Como identificar e oferecer ajuda

Uma mudança significativa de comportamento costuma ser um sinal de alerta de quem pode estar sofrendo de ansiedade e depressão, assim como pensamentos e conversas autodepreciativas. “Se você conhece uma pessoa que tem uma forma de interagir e está mudando de maneira significativa, pode ser um sinal de que ela precisa de ajuda. Ela passa a romper com aquilo que gostava antes, já não se importa mais, tem desleixo com ela própria, é um sinal de alerta”, esclarece. 

O ritmo de trabalho também pode ser mais um sinal de que o emocional está abalado. “A pessoa passa a atender menos ou de maneira excessiva. Tudo tem um certo limite e quanto cruza esse limite, é preciso ajuda profissional”, alerta a psicóloga. O equilíbrio é fundamental.

Por isso, perceber os amigos e familiares ao nosso redor tem sido uma das principais formas de prevenir e combater o suicídio. “Uma aproximação pode fazer a diferença. A pessoa precisa da atenção do outro e a precisamos demonstrar essa atenção. Mesmo que não seja profissional, é importante chegar no outro”, sugere. A psicóloga ainda reforça, “risco a gente corre, da pessoa dizer que ela não precisa de ajuda, de um tratamento. Tem pessoas que negam o sofrimento por muito tempo, mas se aproximar pode fazer a diferença”.

Serviço

Tele Paz (41) 3350-8500
Horário: de domingo a domingo, das 8 às 18 horas
CVV (Centro de Valorização da Vida) 188