Casamento é um projeto a longo prazo. Ninguém pensa em entrar em um compromisso desse tipo de olho na possibilidade de um fim. Mas quantas pessoas de fato fazem planos e se preparam para qualquer situação na vida que não seja imediata? Não muitas.

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O brasileiro não tem o hábito de poupar dinheiro e manter uma reserva para possíveis problemas futuros. E a parte financeira é algo que influencia diretamente o aparecimento e aprofundamento de crises conjugais. Sem um respiro, ao menor sinal de problema nas contas vem uma crise que pode acabar com a alegria de qualquer casal.

A psicóloga Tânia Cristina Barbieri, professora do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), concorda que lidar com dinheiro é um dos principais problemas entre casais. E não é só pela falta dele, necessariamente, mas pela personalidade financeira que cada pessoa pode apresentar. “São diferentes formas de agir e de pensar em relação ao dinheiro”, esclarece.

Quando o dinheiro é motivo de briga, alerta Tânia, isso abala todas as outras áreas. “Você perde a cumplicidade, o carinho, até mesmo a sexualidade do casal é afetada”, destaca. Mas a boa notícia, segundo a psicóloga, é que tem como tirar proveito de momentos assim.

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“Quando bem administrada, a crise traz amadurecimento”, diz. Isso porque o primeiro passo é buscar o diálogo e entender exatamente quais as dificuldades e privações de cada um refletindo sobre as concessões que devem ser feitas diante das crises.

Parcela contra a vida conjugal

Os hábitos e padrões de consumo dos dois e como isso afeta a dinâmica financeira da família são essenciais para traçar um plano de ação. Foi exatamente o que fizeram Daniela e Mário Freitas. Os dois financiaram um imóvel assim que casaram, mas as parcelas começaram a ficar altas demais e as preocupações começaram a deixar os nervos à flor da pele. “Eu não tinha paciência com nada e tudo era motivo pra briga”, revela Daniela.

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A advogada conta que os dois quase se separaram poucos meses depois de casar, mesmo depois de 10 anos de namoro. A solução foi vender o apartamento e se mudar para um menor, de um quarto, que o marido havia herdado da mãe. “Parecia que estávamos em lua de mel de novo. Só de não ter o peso daquela parcela que ficava cada vez maior, esquecemos das picuinhas que incomodavam”, confessa ela, que completa: “Ficamos mais fortes e unidos depois disso”.

Todos juntos na mesma sintonia

Tânia acredita que, quando surgem problemas financeiros, é um erro buscar culpados. Até porque mesmo que haja apenas um único provedor no casal — ou que este seja o responsável pela principal fonte de renda —, a família toda é afetada pela crise financeira. “É necessário criar compromissos individuais e em conjunto e tratar aquele problema como passageiro”, ensina. O comprometimento de todos em solucionar a questão é fundamental até porque se só uma pessoa faz sacrifícios, a balança fica desequilibrada.

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Outra orientação da psicóloga é incluir os filhos para que fiquem cientes das dificuldades. “Criança tem uma percepção maior do que a gente imagina. Ela costuma ser muito participativa e colaborativa, e fica feliz com essa responsabilidade”, enfatiza. Equilibrar os anseios afetivos da família com os objetivos financeiros não é fácil e exige flexibilidade, diálogo e respeito, segundo Tânia.

O maior desafio é manter o afeto diante das restrições, mas entender que é possível até aumentar a cumplicidade do casal. “Casamento exige mudanças. Principalmente realinhar ideias e valores com projetos e interesses comuns. Às vezes a crise é uma oportunidade para isso”, encoraja a psicóloga.