Não são poucos os relatos dos pais dizendo que os filhos ficaram mais distraídos e menos interessados pelos estudos depois que a quarentena começou. Com as escolas fechadas e o tempo livre em casa para outras atividades (bem mais divertidas), somado ao fato de que os pais nem sempre conseguem ajudar suficientemente os filhos nas tarefas enviadas pelos professores, algumas crianças podem estar sofrendo essas novidades e consequentemente tendo uma regressão no aprendizado.

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“Estudar em casa exige um nível de autonomia que muitos deles nunca tiveram e, por isso, não sabiam como lidar com tamanha liberdade”, explica Siona Boiko, pedagoga e diretora do Colégio Santo Anjo, em Curitiba. Segundo ela, é comum que, em situações como essa, as crianças e adolescentes ativem mecanismos de fuga diante de tarefas mais complexas. “Eles querem evitar o esforço e o estresse, principalmente quando se está em um ambiente como a casa, que é vista como um local de descanso e relaxamento”, completou.

Já a psicopedagoga Isabel Parolin, especialista em aprendizagem, entende essa aparente regressão como sendo, na verdade, uma falta. “Primeiro as crianças viveram a perda da escola, só que, ao mesmo tempo, a maioria teve um ganho: mais tempo em casa com a família, menos rotina, mais liberdade. Mas, agora, passado um tempo, o distanciamento do ambiente escolar começa a tomar uma dimensão maior”.

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Para Isabel, essa falta é sentida porque, além das disciplinas curriculares, como Português e Matemática, a escola também ensina conteúdos existenciais, como as relações que a criança estabelece e os afetos que ela conquista. “Elas estão apresentando déficit de aprendizagem porque falta a elas o olhar do professor, a presença do educador, o ensino em sala”, destacou.

Como ajudar

Mas como suprir essa falta se ainda não há nem previsão de quando as aulas serão retomadas nas escolas? Pelo que afirma Isabel, a primeira coisa a se fazer é entender essa falta e pensar: de que forma eu vou ajudar meu filho?

“É o momento de ser solidário, de compreender, de acolher e também de trabalhar”, disse ela. “Se for uma criança mais nova, ela vai se distrair melhor com um jogo, uma atividade, um brinquedo, uma criação de um adulto. Se for uma criança mais velha, vai exigir um pouco mais de elaboração, de qualidade nessa presença, mas há várias formas de colaborar”, indicou.

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Siona orienta, também, que os pais ajudem os filhos a reconhecer a procrastinação e os prejuízos que ela irá trazer a longo prazo, gerando uma autoconsciência nos pequenos. “É preciso ajudar a criança a recuperar sua capacidade de autorregulação, ou seja, sua habilidade de controlar seus comportamentos, emoções e pensamentos. O diálogo constante é a melhor forma tanto de aproximação quanto de conscientização”, explicou.

Exemplos

Na casa da Sofia Ramos, de 9 anos, os pais têm intercalado momentos de lazer com outras atividades que a menina gosta para suprir a falta da escola. “Durante a manhã ela estuda pelo computador, tira dúvidas com a professora e à tarde se reúne com os amigos, virtualmente, para fazer trabalhos ou então para gravar vídeos quando tem tempo livre. Ela queria muito fazer um curso online de lettering (letras desenhadas) e nós fizemos a inscrição. A gente também comprou várias tintas, quadros e papéis de todos os tipos para que ela se divirta com isso”, contou a mãe da menina, Gabriela Ramos.

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Já a engenheira de alimentos Silvana Marques Santa Maria, mãe da Bibiana, de 7 anos, disse que no começo foi mais complicado lidar com a demanda de material que chegava da escola diariamente, mas que agora todos já estão adaptados. “Ela (a Bibiana) se habituou de tal forma que ela mesma já entra sozinha nas lives da escola”. Ainda, segundo a mãe, a perda do ambiente escolar tem sido substituída por bate papo virtual com os coleguinhas e muita interação com os pais. “Em geral, termina uma live e os colegas continuam no Teams para discutir alguma coisa ou mesmo para saberem uns dos outros. Já está todo mundo consciente da nova realidade”, resumiu.


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