A suspensão temporária dos testes da vacina contra a covid-19 em desenvolvimento pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca gerou uma série de dúvidas acerca da eficácia e, principalmente, da segurança da candidata. Quem trabalha com a produção de vacinas, no entanto, tranquiliza: obstáculos no caminho fazem parte das pesquisas, e eles não significam que a vacina em estudos não seja digna de confiança.

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“Todas as pesquisas clínicas são assim, e isso é comum acontecer. Chamamos de efeito adverso tudo que acontece em termos de saúde com os participantes naquele período de avaliação. Se uma pessoa for atropelada durante o período de monitoramento, isso é visto como efeito adverso, mesmo que não tenha nenhuma relação com a vacina. Por isso a importância de paralisar e avaliar se a vacina foi a causa ou se apenas aconteceu ao mesmo tempo”, explica Juarez Cunha, médico pediatra e presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Efeitos adversos que exijam cuidado médico são considerados graves. Os leves e moderados, embora sejam monitorados da mesma forma, são aqueles mais comuns, como febre e mal estar. Por não precisarem de um suporte médico maior, são considerados de menor risco.

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“Ter acontecido [o efeito adverso mais grave] não significa que a vacina não seja boa ou que não seja segura. Temos que saber mais sobre esse efeito adverso que aconteceu, que está sendo avaliado pelos pesquisadores, pela equipe médica do estudo e por um comitê externo. E tudo isso só reforça a seriedade da pesquisa. O que não queremos é que essa fase seja atropelada e que os efeitos aconteçam depois que tiver a vacinação em massa”, reforça Cunha.

O que aconteceu?

Na noite desta terça-feira (8), o laboratório responsável pela pesquisa AstraZeneca anunciou que os testes clínicos de fase 3 [quando o imunizante é testado em milhares de voluntários para verificar segurança e eficácia] da vacina AZD1222 haviam sido suspendidos temporariamente.

A justificativa para a paralisação foi o registro de um efeito colateral considerado grave — que necessitou de suporte médico — em um dos participantes da pesquisa no Reino Unido. Com o anúncio, todos os testes dessa vacina no mundo sofreram a paralisação, inclusive no Brasil. Ela está sendo testada também na África do Sul, Estados Unidos, além do Reino Unido.

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A suspensão significa que se interrompe a inclusão de novos participantes. Os voluntários que receberam a vacina, no entanto, continuam a ser monitorados pelos centros responsáveis.

Nesta quarta-feira (09) pela manhã, o CEO da AstraZeneca Pascal Soriot confirmou que o efeito colateral registrado se tratada de um dano neurológico que se assemelha à mielite transversa, uma síndrome inflamatória que afeta a medula espinhal, desencadeada, em geral, por infecções virais. Essa informação havia sido antecipada pelo jornal norte-americano New York Times, e foi discutida pelo representante da companhia em uma reunião com investidores, de acordo com o site norte-americano especializado em notícias de saúde STAT News.

A participante que desenvolveu os sintomas teria sido uma mulher e, embora o diagnóstico não tenha sido totalmente confirmado, o estado de saúde teria melhorado e ela poderia receber alta hospitalar ainda nesta quarta-feira (9). Ela também teria recebido a vacina em si durante os testes clínicos, e não o placebo.

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Ainda, a revista científica Nature cita que os pesquisadores já haviam registrado um paciente com sintomas neurológicos em julho. Soriot teria confirmado, na reunião, que o teste clínico já tinha sido paralisado no mês de julho, devido a esse primeiro participante. Neste primeiro caso, a pessoa recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla, que não foi relacionada à vacina, de acordo com informações da STAT News.

Impacto no cronograma das vacinas?

O retorno ao ritmo de testes varia conforme o efeito colateral relatado, de acordo com Juarez Cunha, presidente da SBIm. “O principal será uma avaliação do quadro clínico do participante, que parece ter sido um quadro neurológico, e verificar o que levou a isso. Será avaliado se houve uma relação causal com a vacina ou apenas temporal”, explica.

Segundo Juarez, caso se confirme o quadro neurológico citado pelo jornal norte-americano, há ainda outras questões que precisam ser excluídas. “Há várias doenças virais, bacterianas, fúngicas que podem causar quadros neurológicos. Mesmo o início de uma doença autoimune pode causar. Então, não necessariamente é a vacina”, reforça.

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Essa avaliação pode não ser tão rápida, embora a empresa tenha anunciado que em poucos dias teria uma conclusão. Se a resposta vier rapidamente, pode não interferir no cronograma de vacinação, de acordo com o professor de vacinologia da Universidade Federal do Paraná, Breno Castello Branco Beirão.

“A previsão [dos pesquisadores] é dar um resultado em relação a isso em alguns dias, o que não deve atrasar em nada no cronograma. A não ser que os resultados levantem outras suspeitas, e que isso de fato se mostre algo pior do que parece. Mas, em um primeiro momento, não haveria essa interferência no tempo”, explica.

O impacto, em um ponto positivo, poderá ser na confiança à vacina. Segundo Beirão, o fato de a própria farmacêutica ter dado o alerta e interrompido de forma preventiva os testes gera essa confiança de que os testes estão seguindo protocolos rígidos de segurança. “Muitas pessoas desconfiam da indústria farmacêutica, acham que eles só querem vender vacinas, mas esse é um exemplo que eles poderiam não ter dito nada, porque isso terá um impacto negativo para eles, mas não tiveram medo de tomar as medidas mais corretas”, diz.

Já aconteceu isso antes?

Embora a vacina em questão seja a primeira, contra a Covid-19, a ter os testes suspensos temporariamente, esse não é o primeiro teste clínico a passar por esse rito. Em seu perfil no Twitter, o professor de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Lotufo, compartilhou o caso de estudo de um medicamento que estava em testes contra o infarto do miocárdio.

O ensaio clínico, de fase 3, avaliava a medicação em voluntários, quando um deles morreu. “Nós comunicamos de imediato ao patrocinador em São Paulo. Em menos de duas horas já existiam monitores para anotar todos os dados clínicos. Ao mesmo tempo ocorria a autopsia. Em poucas horas, o estudo era suspenso em todo o mundo! Todos os dados foram enviados ao Data Monitoring Safety Board. Após alguns dias concluíram que o evento não teria relação com o medicamento. O estudo continuou e, quando encerrado soube-se que esse paciente estava no grupo placebo.”

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O Data Monitoring Safety Board é um comitê independente que visa o monitoramento da segurança do paciente e eficácia do tratamento em estudos.

Em comunicado à imprensa distribuído pelo Media Centre, Stephens Evans, professor de Farmacoepidemiologia da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, lembra outro caso. “Embora não fosse em um teste, em setembro de 2009, uma mulher jovem morreu logo após receber a vacina contra o HPV. Algumas pessoas imediatamente argumentaram que a culpa seria do fato de ter sido usada a vacina mais barata das duas disponíveis. Um lote foi imediatamente posto em quarentena (equivalente a pausar um estudo), mas exames feitos após a morte mostraram que a causa do óbito foi um tumor maligno grande, muito raro, no peito. A vacina contra o HPV não tinha responsabilidade nenhuma”, relata.

“Nós não sabemos qual foi o evento colateral, mas dado ao fato que, no Reino Unido, pessoas acima de 70 anos foram incluídas nos testes, eventos adversos coincidentes são esperados. Muito ocasionalmente, o que seria esperado em uma pessoa mais velha, como um infarto (e isso não é uma sugestão do que pode ter acontecido aqui), pode ocorrer em uma pessoa mais jovem”, completa o professor.