É comum ouvir de profissionais de saúde que algum paciente chegou falando ao celular no atendimento ao covid-19 mesmo sendo logo depois aferida saturação baixa de oxigênio. Este sintoma, que se tornou clássico e representativo da doença, recebeu o nome de hipoxemia ou hipóxia silenciosa, que não é um termo técnico médico, mas que surgiu no dia-a-dia.

Nesses casos o paciente não se queixa de nada, não tem frequência respiratória aumentada, no exame físico não apresenta grandes sinais de que haja algo errado. “Porém, ao avaliar a saturação do oxigênio, quando se mede a quantidade de oxigênio no sangue periférico, nos capilares, a saturação está muito baixa”, diz Maria Vera Castellano, coordenadora da Comissão Científica de Doença Pulmonar Avançada da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

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Apesar de não existir definição consensual para essa condição pela comunidade científica, sabe-se, diz a médica pneumologista do CHC-UFPR Josiane Marchioro, que essa apresentação, infrequente e que provavelmente acontece com outros vírus respiratórios, tornou-se mais evidente devido à magnitude da pandemia que vivemos.

E casos assim são preocupantes, principalmente se a saturação estiver muito baixa. “Aí é preciso agir rápido, tem que suplementar oxigênio, entrar com ventilação não-invasiva ou invasiva para corrigir, porque a baixa quantidade de oxigênio vai prejudicar o funcionamento do coração, dos rins e do organismo em geral”, diz Maria Vera.

Explicações possíveis

Há algumas explicações possíveis para a hipoxemia silenciosa e que ainda estão sendo estudadas. “Uma delas é que o vírus dessensibiliza receptores – que ficam nos vasos (como nas carótidas) – responsáveis por detectar o baixo nível de oxigênio no sangue e por comunicar isso ao cérebro. Sem essa comunicação, não há comando para que respiremos mais rápido, ou seja, que aumente a frequência respiratória, fazendo com que o sistema nervoso central não reconheça a hipoxemia e não gere a percepção da dispneia”, diz Josiane. “O vírus interferiria nesses mecanismos de alerta responsáveis por aumentar a frequência respiratória e o recrutamento dos músculos respiratórios para esforços maiores”, complementa Maria Vera.

Outra hipótese foca em um mecanismo comum a outras causas de insuficiência respiratória, que não ocorre com frequência na covid-19: o acúmulo de CO2 no sangue, que o torna mais ácido, e que é o maior mecanismo de estímulo ao aumento da velocidade da respiração.

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A coordenadora do SBPT cita ainda outra hipótese, a de que, como a covid-19 cursa com formação de trombos na circulação em geral – e inclusive na circulação pulmonar – que isso possa causar um distúrbio de ventilação/perfusão, fazendo com que haja áreas ventiladas mal perfundidas, sendo essa outra das possíveis causas da queda do oxigênio.

Além dessas prováveis causas, soma-se a percepção da falta de ar, que é bastante subjetiva e varia muito de paciente para paciente. “Tal percepção é reduzida especialmente em idosos e diabéticos, que são grupos de risco para desenvolvimento de covid-19 grave”, diz Josiane. “Esse grupo é hipopercebedor da dispneia, normalmente demora para apresentar sinais e para referir dispneia, então a associação das prováveis ações dos vírus com essa característica desse grupo de risco faça com que eles acabem sofrendo os efeitos da Covid-19 de uma pior forma, podendo explicar o modo como se daria essa hipoxemia silenciosa”, diz Maria Vera.

Ponto “positivo”

A observação de repetidos casos de quadros de hipoxemia importante não acompanhados de sensação de falta de ar (dispneia) na clínica foi importante, segundo Josiane, pois levou médicos a dispenderem mais atenção a pacientes inicialmente classificados como casos leves da doença.

Como se verifica a hipóxia ‘normal’

Quando o oxigênio no organismo diminui, entre os sinais que os médicos percebem está o grande desconforto do paciente. O controle desse suprimento é feito pelo drive ventilatório, relacionado ao funcionamento do sistema nervoso central.

“Existem, em uma área no cérebro, o bulbo e a ponte, onde esse controle se localiza, além de existirem quimiorreceptores periféricos e centrais que respondem a variações na concentração de dióxido de carbono de oxigênio e que emitem sinais para o organismo, fazendo com que aumente a frequência respiratória e a intensidade do esforço dos músculos respiratórios”, diz Maria Vera Castellano, coordenadora da Comissão Científica de Doença Pulmonar Avançada da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).

“É dessa forma que o médico percebe a hipoxemia normalmente, pela frequência respiratória elevada e pelo uso diferente dos músculos respiratórios, com a necessidade de um esforço respiratório a mais, pela dissincronia toracoabdominal, a respiração que normalmente acontece de uma forma tranquila ela vai acontecer de uma forma acelerada e com muito uso dos músculos acessórios, que a gente chama de tiragem. Então estes são sinais que o médico percebe e que nesses casos de hipóxia silenciosa acabam não aparecendo”, diz ela.