Pesquisadores norte-americanos divulgaram no fim de abril os resultados do maior estudo para avaliar as sequelas da covid-19 – também chamada de síndrome pós-covid-19 – até o momento. Na lista de sintomas, que podem se manifestar mesmo 30 dias após a doença, estão:

  • Sequelas do sistema nervoso e neurocognitivo;
  • Desordens de saúde mental;
  • Distúrbios metabólicos;
  • Distúrbios cardiovasculares e gastrointestinais;
  • Mal estar;
  • Fadiga;
  • Dores musculoesqueléticas;
  • Anemia.

Publicada na revista científica Nature, a pesquisa envolveu 73.435 pacientes com covid-19 que não precisaram de atendimento hospitalar comparados com quase 5 milhões de pessoas que não tiveram a doença e entraram no grupo chamado controle. Ainda, o estudo avaliou as informações de 13.654 pacientes hospitalizados pela covid-19 e as comparou com os dados de 13.997 pacientes internados por outro motivo. No caso, a gripe sazonal.

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“Os resultados sugerem que, para além dos 30 primeiros dias de doença, pessoas com covid-19 estão em maior risco de morte, de uso de recursos de saúde e exibem uma série de manifestações clínicas incidentes pulmonares e extrapulmonares”, destacam os pesquisadores no artigo.

Ainda, pessoas que passaram pela infecção do novo coronavírus também tenderiam a fazer mais uso de certas medicações, como as que combatem a dor (sejam opioides ou não), antidepressivos, ansiolíticos, anti-hipertensivos, anti-hiperlipidêmicos, hipoglicêmicos orais, insulinas, entre outros. As informações dos pacientes foram coletadas do banco de dados eletrônico de saúde do Departamento de Assuntos dos Veteranos dos Estados Unidos.

Covid-19 grave e as sequelas

Ainda não está claro por que algumas pessoas tendem a ter sintomas que vão além do período agudo da infecção, mas isso pode ser explicado pela complexidade da covid-19, de acordo com Cristina Pellegrino Baena, coordenadora e pesquisadora do ambulatório pós-covid-19 do Hospital Universitário Cajuru, e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Escola de Medicina da PUCPR.

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“O que estamos vendo, esse número enorme de sequelas e novos sintomas, é reflexo da complexidade da doença. Desde os primeiros casos, quando ficamos surpresos com várias questões que não esperávamos, como a fibrose pulmonar, o quadro inflamatório tão intenso e depois a resposta imune que, por si só, pode causar algumas lesões. É uma doença sistêmica e, por causa da inflamação, da falta de oxigênio e da resposta imune, o paciente pode ter essa quantidade de sequelas e sintomas que vemos hoje”, explica a pesquisadora.

Sabe-se que algumas pessoas que entram em contato com o Sars-CoV-2 acabam desenvolvendo uma reação inflamatória exagerada, na tentativa de conter o vírus. Essa reação é chamada de “tempestade de citocinas”, que são moléculas liberadas pelos macrófagos e células dendríticas, da linha de frente de combate do sistema imunológico, para recrutarem outras células imunológicas.

A liberação dessas citocinas pode gerar um evento inflamatório muito grande nos pulmões, que é o local onde o coronavírus se concentra. Como o processo inflamatório gera acúmulo de líquidos, isso acaba dificultando a respiração – e esse é um dos sintomas da covid-19.

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“Os mecanismos não estão muito claros [de por que algumas pessoas têm sequelas], e essas seriam respostas mais simples, porque vemos no quadro agudo e imaginamos que isso cause o quadro crônico. Mas é também importante entendermos que existem os efeitos diretos e os indiretos. Por exemplo, a interação das doenças prévias com a covid-19 ou o efeito do contexto sócio-econômico. O quanto isso tudo não determina a intensidade das sequelas que vemos?”, questiona Baena.

Ao receber os pacientes no ambulatório que coordena, a pesquisadora relata que é feita a solicitação dos exames e uma avaliação com diferentes especialistas. “A Psicologia faz a triagem para o transtorno de ansiedade, do estresse pós-traumático. Muitos pacientes relatam que a fase mais estressante não foi a internação, mas o isolamento em casa, pela falta de perspectiva, de não saber se teria leito ou não, de como o caso seria conduzido. E essa é uma questão que em outros países pode não ter acontecido”, destaca.

Outra especialidade presente na consulta é a Neurologia, que avalia a função cognitiva dos pacientes. “Uma das queixas mais comuns é a perda da memória, alteração do sono. E isso pode ser temporário, mas é preciso observar.”

Papel das comorbidades

Algumas comorbidades são associadas a quadros mais graves da covid-19, como pessoas com problemas cardíacos e diabéticos. Esses são também os pacientes mais frequentes no ambulatório coordenado por Baena.

“A nossa amostra está bem distribuída entre homens e mulheres, de 24 a 76 anos. Mas os pacientes com sequelas mais graves são os que já tinham doenças anteriormente. Os que apresentam depressão agora, em geral, tinham um quadro de depressão antes. Os que estão com mais sintomas respiratórios, muitos já tinham algum quadro assim antes”, explica a pesquisadora.

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Baena reforça que a amostra de pacientes atendidos no ambulatório ainda é pequena, visto que começou a funcionar em outubro de 2020, mas os dados encontrados até o momento não se distanciam dos divulgados nos estudos anteriores.

“No nosso caso temos 50% das pessoas relatando cefaleia [dor de cabeça] por mais de 30 dias, e 30% relatando alteração no olfato e paladar. Há também desordens do sono e sintomas do sistema nervoso que, no estudo divulgado pela Nature, são as próximas sequelas mais vistas”, explica. 

De acordo com a literatura científica disponível, 7% a 8% dos pacientes com covid-19 terão sintomas persistentes por mais de 30 dias. “Esses estudos maiores mostram também que quanto mais grave for o quadro na fase aguda, maior a probabilidade dessas sequelas tanto em maior número quanto em mais debilitantes”, afirma a pesquisadora.