Cheiro de café saindo da máquina. De chuva. Do seu tempero favorito ou de um forte produto de limpeza. O olfato é poderoso. Basta sentir para que o cérebro ative recordações e múltiplos sentimentos que podem ir da fome ao nojo. Da alegria à saudade. Se te perguntarmos, certamente você saberá responder qual o cheiro que lembra sua infância ou qual é seu perfume preferido. A psicóloga Sheila Rabuske, tem a resposta na ponta da língua. Na verdade, ante a lista dos seus perfumes mais amados, ela reluta em decidir o melhor. Por fim, ela bate o martelo: J’Adore, de Christian Dior e, mesmo que não consiga mais sentir seu cheiro favorito, ela jamais abriu mão de perfumar-se. “Posso até não sentir cheiro de nada, mas faço questão de continuar cheirando a Dior”, brinca.

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Nos últimos 40 anos da sua vida, Sheila dedicou-se ao cuidado da saúde mental de centenas de pacientes. Nos sete últimos anos, porém, ela própria deparou-se com essa situação difícil, com a qual teve de aprender a lidar: a ausência total de olfato. “Foi repentino. Percebi um dia que não estava sentindo cheiro de absolutamente nada e pensei tratar-se de algo passageiro. Mas não era”, relembra. Desde a descoberta, a maratona de exames não foi suficiente para detectar a causa exata do que extinguiu o olfato da terapeuta. “Fui a diversos oftalmologistas, centenas de neurologistas e médicos especialistas em olfação. Nenhum deles conseguiu decifrar o que aconteceu”, conta.

Sheila não se lembra, mas “chuta” que a perda do sentido aconteceu depois de uma forte infecção gripal. “Um dos médicos considerou essa hipótese, porém nada foi confirmado. Também nunca me disseram se algum dia o olfato vai voltar”, revela.

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Colecionadora de viagens internacionais, ela aprendeu a ressignificar algumas das suas atividades favoritas depois da perda do olfato. Uma delas, comprar perfumes. “Sempre que viajo, gosto de andar pelas lojas e aproveitar as oportunidades. Antes, comprar perfumes era uma das minhas partes prediletas ao fim de cada viagem. Atualmente ainda compro e sigo usando meus perfumes pela ‘memória’ e por saber que, mesmo sem sentir, estou bem perfumada”, conta.

Problema comum

Se hoje o que está em voga é a perda do olfato por covid-19, sintoma que atinge cerca de 86% dos infectados logo nos primeiros dias de infecção, transtornos não relacionados à doença que, igualmente, extinguem a olfação são mais comuns do que se imagina. Uma pesquisa da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, divulgada recentemente, aponta que cerca de 5% da população mundial não sente cheiro e, enquanto muitos casos têm origem em doenças específicas, outros podem resultar de situações banais, como uma gripe forte, por exemplo.

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É o que explica o neurologista do Hospital Vita, de Curitiba, João Rafael Sabbag. “Primeiro há que separar-se problemas na olfação – que têm ligação com o cérebro – com problemas no nariz. Esses últimos podem surgir por complicações como rinites ou sinusites, principalmente nas viradas de estação, como agora. Os problemas no olfato, entretanto, têm origem neurológica”, ressalta.

O que pode ser?

Segundo o neurologista, problemas causados no nariz provocados por alergias, por exemplo, podem interferir na capacidade olfativa, porém não representam maiores comprometimentos e, normalmente, saram em algumas semanas. Em casos extremos e raros, porém, é possível que tais quadros evoluam para prejuízos graves no nervo responsável por conduzir o olfato do nariz ao cérebro. “Na pior das hipóteses, quando falamos numa gripe forte, por exemplo, é possível que agentes infecciosos provoquem inflamações graves nesse nervo que pode sofrer danos irreversíveis e jamais voltar a processar os cheiros”, explica o especialista.

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Quando se fala na perda olfativa, o neurologista explica que, na maioria dos casos (que não covid), está associada a doenças de impacto neural como Parkinson, esclerose mútipla, Alzheimer, AVC’s ou minigiomas, que são tumores nas meninges. “Essas doenças danificam a mielina, que protege o nervo que processa o olfato. Por isso a perda desse sentido é um sintoma comum entre os pacientes dessas doenças”, afirma.

O neurologista comenta que no último ano, a maioria dos pacientes que o procurou devido à perda de olfato eram vítimas do coronavírus. Ele alerta porém para que estejamos atentos, já que a perda da olfação por um período prolongado pode significar a incidência de uma doença neurológica. “Uma paciente minha me procurou para fazer exames em busca de uma resposta à sua perda olfativa que perdurava muitos meses depois sua recuperação da covid. Após análise, constatou-se a presença de um tumor cerebral que tinha relação direta com o sintoma”, revela.

O que fazer?

Segundo o especialista, ao detectar a perda do olfato, o primeiro passo é procurar um otorrinolaringologista para averiguação. Caso não haja solução e o problema persista, Sabbag orienta a procurar um neurologista para melhor investigação. “Com orientação adequada, exames mais específicos ajudam a detectar a exata origem do problema. Em alguns casos recomenda-se ressonância magnética e em outros, mais difíceis, a punção lombar. De qualquer forma, deixar totalmente de sentir cheiros não é normal e, caso o quadro esteja durando muito mais que o esperado, vale a pena investigar melhor”, finaliza.