A febre foi um dos primeiros sintomas listados para a Covid-19, quando a doença começou a se espalhar pelo mundo, em meados de março. Ao lado da tosse seca e da falta de ar, a temperatura acima de 37,8 graus Celsius ajudava a identificar uma possível infecção, e foi muito usada como parâmetro para entrada em espaços públicos, como supermercados.

Agora, porém, sabe-se que há outros sintomas mais prevalentes – e mais confiáveis – que poderiam ajudar no rastreamento da doença. Entre eles, a redução ou perda do olfato, também chamada de anosmia.

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De acordo com dados do maior estudo epidemiológico do mundo sobre o novo coronavírus, o EPICOVID19-BR, desenvolvido pela Universidade Federal de Pelotas, a alteração no sentido foi listada como sintoma pela maioria (62,9%) dos participantes. Na sequência, a dor de cabeça (62,2%) e, em terceiro lugar, a febre (56,2%).

Usar o termômetro como equipamento de rastreio da infecção pelo novo coronavírus, segundo Gustavo Sela, médico otorrinolaringologista, além de não ser a medida mais confiável, traz outros questionamentos.

“Não é nem um pouco confiável [usar a febre como parâmetro]. Você nem sempre sabe a procedência dos equipamentos [termômetros], se são bons ou não. Sem falar que várias outras situações podem causar a febre, como uma infecção bacteriana. E a pessoa consegue mascará-la por meio de medicamentos. O cheiro, não. É uma lesão estrutural, nas células olfativas, ou por edema [inchaço]”, explica o especialista que atua na Otorrinos Curitiba, além de ser preceptor do curso de especialização de Otorrinolaringologia do Hospital Cruz Vermelha.

“Esses dias mediram a minha temperatura e estava com 34 graus Celsius. Pensei ‘estou morto, né?’. Esses sensores podem ter algum problema, variar conforme a temperatura do local, e geram um viés por não medir de forma adequada”, relata Marco Aurélio Fornazieri, médico otorrinolaringologista professor da PUCPR, campus Londrina e da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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Teste do cheiro

Verificar a capacidade olfativa de multidões pode não ser tão simples quanto apontar um termômetro para a testa de cada um e obter uma resposta em segundos. Mas há testes de cheiro simples, e que podem ser feitos em casa, todos os dias, como uma avaliação informal. De acordo com Fornazieri, uma opção fácil e prática é o teste do álcool. Atenção ao passo a passo:

  • Em uma bola de algodão, pingue três gotas de álcool etílico 70%.
  • Coloque uma régua de 30 centímetros abaixo do nariz da pessoa a ser avaliada.
  • Peça para que ela feche os olhos.
  • Segure o algodão na posição dos 30 cm e suba um centímetro por vez, a cada respiração.

A pessoa deve ser capaz de sentir o cheiro entre os 30 e 15 centímetros. “Se a pessoa só conseguir sentir a partir dos 15 cm, há uma alteração olfatória. É um teste prático, que daria para fazer, e com um material inicial. Não vai ser tão rápido quanto um termômetro, mas é mais preciso do que a medição de temperatura”, explica o médico otorrinolaringologista.

A fim de agilizar o processo, cada pessoa pode fazer esse teste rápido em casa, antes de sair para o mercado ou a farmácia. Caso sinta dificuldade em sentir o cheiro, não saia e fique atento ao surgimento de novos sintomas.

Testes mais profissionais, como o UPSIT, desenvolvido pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, reúne 40 substâncias e cada pessoa demora cerca de 15 minutos para concluir. Mas, caso a medida seja adotada como barreira em ambientes públicos, esse teste não seria o mais indicado, devido ao custo, o tempo e a necessidade de médicos para a avaliação.

Sela sugere que cheiro de rosas – a partir do uso do álcool feniletílico – , da grama e de goma de mascar poderiam ser mais viáveis. “Imagino que um teste mais prático para usar em mercados e outros lugares seria eleger três ou quatro substâncias, e fazer a pessoa testar, sem saber o que é. Como na Covid-19 há também uma diminuição na intensidade do cheiro, não só uma perda total, o ideal seria colocar a substância em um cotonete, em menor quantidade”, sugere.

Autopercepção

Pesquisadores da Mayo Clinic Proceedings perceberam em uma análise de outros 24 estudos, com dados de 8.438 pacientes confirmados para a Covid-19, que 41% das pessoas relataram terem perdido o olfato de forma total ou parcial durante a doença.

Mas, entre os estudos que faziam essa avaliação de forma objetiva (em vez de perguntarem às pessoas se haviam percebido alguma alteração), a incidência da anosmia se mostrou 2,3 vezes maior, chegando a 80% dos casos. “A autopercepção do olfato é diferente da visão e da audição, que outras pessoas notam. O olfato é muito pessoal. Idosos e homens, principalmente, são os que menos percebem as alterações. As mulheres percebem um pouco mais”, justifica Fornazieri.

Para Sela, como na Covid-19 pode haver uma redução parcial, e não completa, do sentido, isso também contribui para uma menor autopercepção. “Só quando a pessoa faz o teste que ela percebe a gravidade da perda”, diz.

Coronavírus no nariz

Nas células olfativas que se localizam na região superior do nariz, parte delas possui a enzima conversora da angiotensina 2 (ECA2 ou ACE2, na sigla em inglês). Essa enzima da célula se liga à proteína Spike (espícula) do novo coronavírus, que permite a entrada do vírus nas células humanas, para então se replicar. Esse contato, porém, gera uma lesão nas células.

“Dependendo do grau da lesão, pode fazer apenas um edema [inchaço] ou a destruição da célula. No caso do edema, o olfato tende a retornar em duas a três semanas. Quando se gera uma lesão na célula do epitélio olfativo, demora de um a dois meses. Isso porque esse é o tempo que as células levam para se regenerar. A gustação é um pouco diferente, porque as células se regeneram em 14 dias. Então o paciente volta a sentir o gosto antes do cheiro, mas não total, porque o olfato também está relacionado com a gustação”, explica Sela.

Passou pela Covid? Treine o nariz

Quem passou pela Covid-19 e teve uma redução parcial, ou até mesmo total do cheiro, pode ir treinando o olfato em casa, a fim de recuperar mais rapidamente o sentido. Em um artigo publicado na revista científica American Journal of Rhinology & Allergy, o médico otorrinolaringologista Marco Aurelio Fornazieri sugere alguns alimentos e substâncias que podem ser incluídas nesse “treinamento olfatório caseiro”, como por exemplo:

  • Café;
  • Cravo;
  • Mel;
  • Vinagre de vinho tinto;
  • Pasta de dente de menta;
  • Essência de baunilha;
  • Suco de tangerina do tipo concentrado.

A orientação, segundo o médico, é de que a pessoa cheire uma pequena porção de cada um desses produtos por 10 segundos, com intervalo de 15 segundos entre eles, duas vezes ao dia, durante pelo menos três meses. Esse período pode se estender, caso necessário.

“Alguns odores, como o cravo, café e mel são coisas que só o olfato sente e não arde o nariz. Se a pessoa não sentir, é melhor que fique em casa. Quem perdeu a capacidade de cheirar por causa do coronavírus, se começar a fazer o treinamento, tem mais chance de recuperar o sentido”, completa o especialista.