A maioria das fotos de pessoas recebendo a vacina contra a Covid-19 mostra a pose clássica: mangas arregaçadas (ou abaixadas) e o braço de fora com a agulha no papel de destaque. O músculo do braço, porém, não é a única região que pode receber a aplicação e outras partes trazem até mais benefícios, como a região dos glúteos.

O estado de Santa Catarina, por exemplo, é conhecido por, sempre que possível, aplicar os imunizantes no músculo ventroglúteo (também chamado de Hochestetter), localizado um pouco acima e na lateral das nádegas. Além de menos dor, a aplicação dos imunizantes nesta área tende a diminuir também as reações adversas sistêmicas, como mal-estar e febre, de acordo com Mayra Moura, enfermeira e diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

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Segundo Moura, como a região traz uma boa camada de músculo, mas não tem grandes vasos ou terminações nervosas importantes, a dor no local após receber a vacina tende a ser menor do que em comparação com o músculo deltoide, no braço. Com relação aos sintomas de febre e mal-estar, a especialista detalha que os estudos de vacinologia apontam para esse benefício, embora não expliquem exatamente o porquê.

“Os estudos não se aprofundam para explicar por que existe essa diminuição da reação sistêmica. Mas, da reação local, sabemos que, por ser um grupo muscular grande, com muito volume muscular, mesmo injeções muito doloridas acabam sendo administradas sem dor. Eu já vi gente recebendo Benzetacil sem sentir dor nenhuma”, afirma Moura. Benzetacil é um medicamento que contém a penicilina, antibiótico usado para o combate de infecções bacterianas, e é conhecido pela dor na aplicação.

Vale para todas as vacinas?

Não são todas as vacinas que podem ser aplicadas nessa musculatura ventroglútea, mas sim as que tiverem a indicação de uma administração intramuscular. “Há várias vias de administração, como a intradérmica, que é bem superficial. É a usada pela vacina da BCG, que deixa a cicatriz. Tem a via subcutânea, quando administra a vacina ou medicamento no tecido adiposo, com uma absorção mais lenta. E a via intramuscular”, explica Moura.

Segundo a diretora da SBIm, a via de administração é avaliada e indicada logo nos ensaios clínicos dos imunizantes ou dos medicamentos. “Uma vacina intramuscular significa que ela tem uma resposta melhor se feita no músculo. Se você aplicar na região subcutânea, essa do tecido adiposo, pode não ter a mesma eficácia”, destaca.

No caso das vacinas contra a Covid-19 usadas no Brasil, todas têm a indicação de uso intramuscular, e não há limitação de em qual músculo aplicar: deltoide (braço) ou ventroglúteo (acima dos glúteos), de acordo com o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra Covid-19.

Por que não adotar esse músculo como regra?

Se é uma região que pode receber as vacinas contra a Covid-19, e com benefícios como menor dor e reações adversas, por que não adotá-la? A resposta pode estar na familiaridade dos aplicadores e na facilidade do braço.

“Eu e outros colegas da SBIm também levantamos muito essa bandeira, de que essa deveria ser a principal região para administrar a vacina. Mas é preciso uma capacitação mais aprofundada para fazer essa administração, e o profissional de saúde precisa se sentir seguro e confiante. As pessoas acham mais fácil fazer no deltoide, e a maioria das pesquisas clínicas acabam usando o deltoide, porque é mais fácil”, explica Moura.

A especialista explica que a capacitação dos profissionais é importante porque, caso o aplicador não delimite corretamente a região para receber a agulha, pode atingir uma articulação. “É difícil, mas pode acontecer. É preciso conhecer bem a anatomia. No braço, as pessoas também erram a aplicação, mas como todo mundo recebe a vacina ali, o erro passa como aceitável”, explica.

“Em teoria, pode [a pessoa escolher o músculo onde quer receber a vacina contra a Covid-19], mas a prática acho difícil algum local aceitar, porque estamos vacinando em massa, com muita gente na fila. E a maioria dos profissionais não sabe fazer. Santa Catarina já cultiva essa tradição há muito tempo. Para eles, é só mais uma vacina. Eles já fazem a aplicação da vacina contra a influenza no ventroglúteo, por exemplo”, detalha Moura.

Músculo diferente, eficácia igual

Se a vacina tem a indicação de ser aplicada via intramuscular, independentemente do músculo, a eficácia será a mesma, de acordo com a especialista. “Pelo que conhecemos de vacinologia, entendemos que a via é intramuscular, então qualquer músculo em que seja administrado, a resposta da vacina será a mesma”, explica Moura.

A especialista cita ainda outras regiões que podem receber as vacinas, como a lateral da coxa, que é usado para aplicar vacinas em crianças menores de dois anos. “A eficácia é a mesma, e a segurança é maior”, explica Moura.