Um milhão de doses da vacina da Pfizer/BioNTech chegou ao Brasil na última quinta-feira (29), um mês após o anúncio do Ministério da Saúde de intenção de compra do imunizante contra a covid-19. A negociação prevê a entrega de 100 milhões de doses. As demais serão entregues entre os meses de outubro e dezembro. E parte destes imunizantes desembarca no Paraná na noite desta segunda-feira (3), após a chegada prevista para às 8h30 desta segunda ser adiada, como informou a Secretaria de Estado da Saúde, no início desta tarde.

Segundo o governo estadual, nesta remessa serão 32.760 doses de vacinas da farmacêutica norte-americana Pfizer, produzida em parceria com a empresa de biotecnologia alemã BioNtech. Estas doses, devido às especificidades técnicas e exigências de armazenamento, que demandam temperaturas muito baixas, ficarão em Curitiba, seguindo orientação da Coordenação-Geral do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde.

LEIA MAIS – Paraná altera Plano de Vacinação e inclui vacina Pfizer e grupos com comorbidades

Com uma eficácia calculada em 95%, a vacina da Pfizer/BioNTech foi a primeira a receber a validação de uso emergencial pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no fim de dezembro de 2020. Desde então, mais de 40 países liberaram o uso para suas populações.

No Brasil, foi também a primeira vacina a receber o registro de uso definitivo pela Anvisa, no fim de fevereiro. Saiba mais sobre a eficácia, segurança e outras informações associadas a esse imunizante:

Eficácia

Conhecido como BNT162b2, comirnaty ou ainda tozinameran, o imunizante foi testado em diferentes países — entre eles o Brasil — e, em meados de novembro, teve o dado de eficácia divulgado: 95%, após a aplicação de duas doses, com um intervalo de 21 dias.

LEIA AINDA – Fiocruz recebe autorização da Anvisa pra produzir IFA para vacina contra covid-19

Os resultados dos estudos clínicos de fase 3 que chegaram a esse número foram publicados no início de dezembro na revista científica New England Journal of Medicine.

Como funciona

Com uma tecnologia inovadora, a estratégia da vacina BNT162b2 para ‘ensinar’ o sistema imunológico a combater o Sars-CoV-2 se baseia no RNA mensageiro do vírus — ácido ribonucleico que contém informações sobre o novo coronavírus. Assim, um filamento do RNA do coronavírus é entregue ao sistema de defesa humano. Esse filamento carrega uma mensagem, que é a ‘receita’ de como produzir uma proteína do Sars-CoV-2, e as células humanas a traduzem.

LEIA MAIS – Profissionais da saúde são os novos heróis e recebem mimos e a gratidão dos curitibanos vacinados

Visto que o corpo humano não expressa, normalmente, essa proteína, as células de defesa aprendem a identificá-la e a combatê-la, caso encontrem a versão real do vírus dali para frente. Esse tipo de estratégia não precisa do vírus inteiro para ser fabricada, apenas de parte do RNA.

Vantagens e desvantagens

Entre as vantagens desse tipo de tecnologia estão o baixo custo para a produção e o alto rendimento. Nas desvantagens, o principal ponto contra a vacina da Pfizer/BioNTech era o armazenamento, que exigia temperaturas baixíssimas, de 70 graus Celsius negativo.

O supercongelamento se faz necessário porque o RNA é uma molécula instável, e qualquer mudança na temperatura poderia atrapalhar essa estabilidade. A farmacêutica, no entanto, desenvolveu modelos de bolsas térmicas com gelo seco que permitiam o armazenamento por até 10 dias fechado.

No fim de fevereiro, a agência regulatória norte-americana, FDA na sigla em inglês, autorizou o armazenamento e transporte do imunizante em temperaturas de congelador padrão, por até duas semanas, em vez de instalações ultrafrias. A permissão veio depois que as desenvolvedoras encaminharam novos dados à agência destacando que as ampolas das vacinas poderiam ser guardadas entre 25 a 15 graus Celsius negativo, por até 14 dias.

As doses que chegaram nesta semana ao Brasil serão armazenadas em um centro de distribuição do governo federal em Guarulhos (SP), onde estão as câmaras frias capazes de atingir 70 graus Celsius negativo.

Dose única

Pesquisa publicada em formato pré-print no site da revista científica The Lancet demonstrou que uma única dose da vacina da Pfizer/BioNTech seria capaz de reduzir 85% das hospitalizações pela covid-19 em um período de 28 a 34 dias após a vacinação.

O mesmo estudo também avaliou a eficiência da vacina produzida pelo laboratório AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford. No caso, a redução no risco de hospitalizações foi ainda maior, de 94%.

Adolescentes

A Pfizer também avaliou o imunizante em adolescentes de 12 a 15 anos, e verificou uma eficácia de 100%, segundo informações divulgadas pela própria empresa. O ensaio clínico avaliou 2.260 adolescentes, nos Estados Unidos. Destes, 1.129 eram do grupo controle, que receberam substâncias inócuas, ou placebo. Neste grupo, foram diagnosticados 18 casos de covid-19.

O grupo vacinado contou com 1.131 adolescentes, e não houve casos da doença. Segundo a Pfizer, os efeitos colaterais relatados foram consistentes com os observados entre os participantes de 16 a 25 anos de idade.

Fake news

A tecnologia usada na vacina da Pfizer/BioNTech é nova e, por isso, é comum gerar desconfiança. Mas falar que a vacina de RNA pode modificar o DNA humano, isso está errado, segundo explicou a microbiologista Jordana Coelho dos Reis, em entrevista ao Sempre Família.

“É muito importante frisar isso: nem essa, nem qualquer outra vacina produzida tem a capacidade de mudar o nosso genoma. Não são usadas estratégias semelhantes ao que, naturalmente, realiza o vírus do HIV, que se integra ao nosso genoma. As vacinas não têm nada disso”, alerta a especialista.

LEIA TAMBÉM – Fim do internamento em hospital dermatológico preocupa pacientes que precisam de tratamento especializado

O RNA mensageiro que é entregue pela vacina também é produzido pelas células humanas, para a produção de proteínas para o nosso corpo, como a insulina — hormônio responsável pela captação do açúcar no sangue. “Quando a gente vai produzir alguma proteína, isso é feito pelo RNA mensageiro. As nossas células produzem esse RNA o tempo todo. O que a vacina faz é usar esse RNA para que as células codifiquem a proteína do vírus, e o sistema imunológico aprenda a nos proteger”, reforça Jordana.

O mesmo processo é feito pelo vírus, quando desenvolvemos uma doença. A diferença para as vacinas, porém, é que todo o processo é controlado – sem o desenvolvimento dos sintomas da doença. “[As vacinas entregam ao corpo] apenas os componentes que induzem a resposta imunológica, não os componentes que induzem a doença. Mesmo que a vacina entregue o vírus inteiro, inativado ou atenuado, ele não teria o maquinário para alterar o nosso DNA, pois são necessárias enzimas específicas para isso, que não estão presentes em nenhuma das vacinas que estão sendo estudadas”, explica.

A especialista destaca, ainda, a importância de a população se vacinar, assim que tiver um imunizante disponível no país. “Na possibilidade de se vacinar, não perca essa oportunidade. A covid-19 não é uma ‘gripe comum’. Há pessoas que mesmo tendo poucos sintomas estão com sequelas até hoje. A covid-19 é uma síndrome que pode deixar sequelas”, alerta a microbiologista.